20 de janeiro de 2022

CRÍTICOS DESDENTADOS

Por Rosângela Góes (Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo é professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia, graduada em Letras e especialista em Avaliação, escritora, membro da Academia de Letras do Recôncavo-ALER, e da Academia de Educação, Letras e Artes de Valença-AVELA).

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CRÍTICOS DESDENTADOS

Vivemos tão midiaticamente envolvidos, que praticamos o que Zigmunt BAUMAN chama de crítica desdentada. Quando usamos nosso poder crítico, por exemplo, nas redes sociais, fazemo-lo muito mais pelo desejo de sermos vistos por emitir uma opinião, do que pela consciência crítica de que podemos ajudar a mover alguma mudança significativa. Uma “crítica desdentada”, segundo Bauman, é a crítica de consumidor, esta que nada destrincha e apenas faz terapia naquilo que morde. Atualmente, vivemos um mundo que nos predispõe à crítica, mas essa crítica que recebemos e que também acionamos é ‘desdentada’, porque se mostra incapaz de mover ou incomodar as estruturas político-sociais estabelecidas.

Este tempo, que ele define como líquido, e que até há pouco tempo era chamado de pós-moderno, é uma modernidade que colabora com o sistema econômico que oprime, na medida em que os indivíduos vivem na ilusão de que se trata de uma crítica dentada, ou seja, com poder real de destrinchar, transformando e desestabilizando alguma questão. Porém, estamos é reiterando a impossibilidade de qualquer mudança revolucionária, pois somos compelidos, na lógica neoliberal, a fazer parte do sistema como mordedores desdentados competentes, mas sem obra, fazendo a crítica pela crítica, que não morde a nós mesmos primeiro, provocando-nos a indignação e a fúria necessárias para abalar o que queremos que seja transformado.

Enfim, a matrix nos incentiva ao desempenho de estar desempenhando, para que possamos dar vazão às veleidades que o próprio sistema aciona, mas com a mordida inócua dos sem dentes.

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