21 de outubro de 2026

27 de fevereiro de 2026

“Porque de”: A expressão que todo valenciano que se preze tem em seu vocabulário.

Por Antonio Eduardo Café.

 

Este texto será um registro para a internet desta doce jabuticaba valenciana que consiste em uma “locução conjuntiva” presença mais que confirmada no vocabulário dos nascidos e criados em Valença: o “porque de”.

Longe disso ser científico ou sério, isso será uma conversa íntima entre mim e os meus conterrâneos.

Somente como escudo científico de credibilidade mesmo, baseei meu texto na Moderna Gramática do Bechara e na Nova Gramática de Cunha & Cintra.

Nasci e me criei usando “porque de” em Valença, “eu me atrasei porque do trânsito” “eu me estressei porque dele” “eu voltei porque de fulano” “eu me assustei porque disso”.

A primeira vez que aprendi que usar “porque de” não era gramaticalmente adequado na norma-padrão da língua foi em uma aula de Prof.ª Edna Ramos Arruda, na sétima série do ensino fundamental.

Ali a professora de gramática me explicou que o adequado seria usar o “por causa de”, mas não adiantou à época, pois não importa o canto de Valença que se vá, o “porque de” está lá.

Hoje que moro fora de Valença, se eu passo 15 dias em Valença, volto pra Salvador cheio do “porque de” na boca (lá ele!).

Tenho que me reeducar para não escrever “Meritíssimo, a condenação do réu está prescrita PORQUE DO artigo tal”.

Claro que, principalmente, pelas novas formas de se enxergar as variações linguísticas regionais, NA ORALIDADE INFORMAL, pode não ser considerado incorreto.

MAASSS como advogado/estudante/profissional, não posso usar o “porque de” numa redação científica/acadêmica, uma petição ou ainda uma sustentação oral perante o Tribunal, um documento oficial, situações e textos que se exige a norma-padrão da língua.

“Porque” é uma conjunção causal e serve para conectar/infroduzir introduzindo uma oração. “Por causa de” é uma locução prepositiva de causa ou motivo para ligar duas palavras em uma frase e dar sentido à conexão entre elas.

O “porque” (junto e sem acento) quase sempre poderá ser substituído por “pois”:

“Eu sou feliz porque tenho uma família feliz”
“Eu sou feliz pois tenho uma família feliz”

Mas eu não posso fazer o mesmo com:

“Eu me atrasei pois dele”
“Ele se desconcentrou pois de fulana”

Por isso, o “porque disso” ou “porque dele” ou “porque de fulana” não é adequado gramaticalmente falando.

O esperado pela norma-padrão seria:
“Eu me atrasei por causa dele”
“Ele se desconcentrou por causa de fulana”.

Mas não desejo banir o “porque de” do vocabulário valenciano ou demonizá-lo, mas dizer que em qualquer texto formal que exija a correção gramatical, não vai caber.

Inclusive, já que falei em demonizar, meu palpite (fonte: vozes da minha cabeça) é que esse vício surgiu da religião da maioria dos valencianos, segundo o IBGE (Censo de 2022), o cristianismo, já que as principais versões da Bíblia usadas pela Igreja Católica e Evangélicas em Valença, como a tradução de João Ferreira de Almeida (1681), trazem a seguinte tradução da Carta aos Romanos, capítulo 11, famoso versículo 36:

“Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.” (O mesmo ocorria na versão do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo [final do século XVIII], usada pela Igreja Católica por anos).

Se essa foi a origem do “porque de” valenciano, não posso afirmar cientificamente, mas assumam que é um bom palpite.

Destaco que usar “o porquê disso” não está gramaticalmente incorreto, desde que seja o “porquê” (junto com acento).

Com isso, espero ter contribuído com você amigo e amiga conterrâneo de Valença que ama e não consegue viver sem o “porque de”, mas precisava saber que ele não cabe dentro da norma-padrão da Língua Portuguesa.

Agora se na hora da conversa vierem criticar o seu “porque de” diga que ignorante mesmo é desconhecer que a língua também tem sotaque, história e território.

Só um ultimo alerta: Cuidado! O costume do cachimbo deixa a boca torta… Ou seja, não use quando se é obrigatório usar a norma-padrão, seja na oralidade ou escrita.

SOBRE O AUTOR:

Antonio Eduardo Café é valenciano, advogado, bacharel e mestre em Direito pela UFBA, professor universitário e um escritor amador nas horas vagas.

 

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