17 de janeiro de 2022

CAIRU: UMA HISTÓRIA MONUMENTAL

Contando uma História dentro da velha História

0 51

ROSÂNGELA GÓES DE QUEIROZ FIGUEIREDO – Organização dos episódios pesquisados nas fontes de referência e adaptação com relatos de moradores e descendentes do município de Cairu – BA.

O município de Cairu localiza-se na hoje chamada Costa do Dendê, uma das mais antigas áreas de ocupação e povoamento do território brasileiro. As primeiras notícias sobre essas terras férteis e de águas abundantes têm-se com a viagem de Martim Afonso de Sousa, a mando do rei de Portugal D. João III, em 1530. Numa expedição de 400 homens e cinco embarcações, tinha a tríplice incumbência de explorar a costa brasileira desde o Maranhão até o rio da Prata, impedir o comércio de pau-brasil pelos franceses e fundar pequenas feitorias, que mais tarde deram origem às primeiras vilas. No ano seguinte, Martim Afonso de Sousa foi um dos primeiros europeus a pisar as areias brancas das praias da Costa do Dendê. Antes dele, Diogo Álvares Correia, o Caramuru, chegou até os destroços de uma nau castelhana, na ilha de Boipeba, em 1526, onde hoje está a Ponta dos Castelhanos, num episódio bastante conhecido sobre a descoberta da imagem de Nossa Senhora da Graça, por Caramuru, como aquela que aparecia em sonhos a sua esposa, a índia Catarina Paraguaçu, e que seria fruto de sua mais pura veneração…

“O sonho de Catarina Paraguaçu” (Manuel Lopes Rodrigues1871). Igreja da Graça, Salvador.

Essa imagem seria a que está hoje na Igreja e Abadia de Nossa Senhora da Graça, erguida no local da primitiva ermida mandada erigir pela devoção da índia Catarina Paraguaçu, esposa de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, em 1535, no antigo povoamento denominado Vila Velha, hoje bairro da Graça, em Salvador da Bahia.

Em 1531, Martim Afonso ancorou sua frota em um porto natural, localizado na contra costa do atual Morro de São Paulo, uma falésia de pedra calcária que domina a paisagem do lugar que os índios chamavam de tý-nhã-ré, “o que se adianta na água”.  Nos relatos da viagem de Martim Afonso, escritos por seu irmão Pero Lopes de Sousa, estão registradas as primeiras notícias sobre a ilha de Tinharé. Em seu diário de bordo, Pero Lopes anotou: “E ao pôr do sol vimos a terra e conhecemos a boca do rio Tinharé da banda do sul”. Lopes se refere a Tinharé como algo já familiar ao mundo dos navegadores e cartógrafos, o que prova que a região já era anteriormente conhecida. A esse respeito, o estudioso Antônio Risério comenta: “O local foi certamente conhecido, antes da passagem de Martim, por alguns navios espanhóis, franceses e até portugueses que circularam por ali. E seu nome, memorizado, passou a viajar de boca em boca entre os navegadores que então vagavam sob o céu tropical brasileiro.”

O “capitão-mor e governador das terras do Brasil”, Martim Afonso de Sousa, havia sido nomeado, em 1527, pelo rei D. João III, justamente para ajudar a conter os piratas e outros navegantes, de olho nas terras brasileiras. Para isso, o mesmo monarca resolveu, em 1532, dividir o Brasil em quinze grandes porções de terra, denominadas Capitanias Hereditárias. Portugal enfrentava uma grave crise financeira, sendo forçado a tomar dinheiro sob juros altos aos banqueiros de Flandres, nos Países Baixos. Além do mais, Lisboa sofrera um grave terremoto nos últimos meses de 1531. Por essas e outras razões, a Coroa não dispunha de recursos para promover a colonização do Brasil, cujo território estava ameaçado por esses aventureiros, principalmente os franceses, ávidos pela exportação do pau-brasil. Da madeira dessa árvore era extraído um pigmento vermelho bastante disputado pelas tinturarias europeias. O vermelho era a cor preferida pela nobreza e pelo alto clero. Por isso, a muito custo, D. João III aceitou os argumentos de D. Antônio de Ataíde, que defendia entregar “à iniciativa privada a obrigação de ocupar a colônia – sob pena de perdê-la para os franceses”

Martim Afonso retornou ao continente europeu, sendo as terras portuguesas na América divididas em 15 imensos lotes, com cerca de 300 km de largura cada um. Nessa divisão, que teve como base o mapa do astrônomo Gaspar Viegas, três lotes correspondiam ao território do atual estado da Bahia: as capitanias de Porto Seguro, da Bahia e de Ilhéus, doadas, respectivamente, a Pero do Campo Tourinho, Francisco Pereira Coutinho e Jorge de Figueiredo Correia.

O POVOAMENTO DA CAPITANIA DE ILHÉUS

Por volta de 1535, chegaram à capitania de Ilhéus os primeiros colonos portugueses, trazidos pelo donatário Jorge de Figueiredo, escrivão da Fazenda Real, considerado “um dos homens mais ricos de Portugal”. Apesar de “homem opulento e influente, jamais pensou em trocar seu cargo de escrivão e as comodidades da corte pelos azares e trabalhos do governo de sua remota capitania”, segundo o historiador Pedro Azevedo, citado por Eduardo Bueno, enviando, em seu lugar, o castelhano Francisco Romero, que vivia em Lisboa.

Francisco Romero deve ter chegado à Baía de Todos os Santos entre o final de dezembro de 1535 e janeiro de 1536, segundo Bueno, e partido para o sul, a fim de ocupar a capitania que iria governar, tendo se instalado inicialmente na ilha de Tinharé, na localidade de Morro de São Paulo. Segundo depoimentos deixados pelo ouvidor-geral do Brasil, Pero de Borges, que, em 1550, já no governo de Thomé de Sousa, vistoriou a capitania de Ilhéus, em nome do rei, Francisco Romero era “bom homem, mas não para ter mando porque é ignorante e muito pobre, o que muitas vezes faz fazer aos homens o que não devem”. Embora mau administrador, Romero era sujeito “acordado e experimentado para cousas de guerra”. Permaneceu por pouco tempo na ilha de Tinharé, onde seus colonos desbastaram uma clareira no sopé do Morro de São Paulo, abrindo espaço para instalar-se no meio da densa e verdejante Mata Atlântica, que dominava a paisagem da ilha. Um destacamento enviado por ele para explorar as regiões próximas “voltou após algumas semanas com a notícia de que encontrara um sítio mais favorável onde construir a sede da donataria”, estrategicamente perfeito, pois ficava em uma península, abrigado por quatro ilhéus, em meio aos quais o rio Cachoeira desaguava no Oceano Atlântico. O local, além de facilmente defensável, era protegido pelo mar e pelo rio e oferecia excelente ancoradouro para as naus, além de ser “a terra fértil, regada de águas límpidas e recoberta por vegetação luxuriante”.

O local recebeu o nome de São Jorge dos Ilhéus. “Jorge”, além de ser o nome do verdadeiro dono da terra – Jorge de Figueiredo –, era também o santo da devoção do donatário, e “Ilhéus”, uma referência às quatro ilhotas. Embora a região fosse dominada pelos valentes e temíveis aimorés, povo indígena considerado pelos colonizadores como um dos mais sanguinários entre os que ocupavam o litoral brasileiro, de início tudo correu às mil maravilhas na capitania de Ilhéus. Já em fins de 1536, Francisco Romero enviava para o reino uma nau repleta de pau-brasil. A embarcação levava boas notícias: a vila estava instalada e fortificada e contava com uma pequena capela. O sucesso da ocupação daquelas terras e dos empreendimentos lá implantados foi tão grande, que o donatário acabou distribuindo em Lisboa, no ano seguinte, três sesmarias. Doou-as a Mem de Sá, futuro terceiro governador-geral do Brasil, Fernão Álvares de Andrade, donatário do Maranhão, e Lucas Giraldes, rico banqueiro florentino e ativo investidor, há vários anos instalado em Lisboa. Segundo Eduardo Bueno, em sua obra já citada, “tais doações indicam que, embora possuísse grande fortuna, Jorge de Figueiredo buscava parceiros para investir na produção do açúcar em sua capitania”.

TEMPOS DE GUERRA

A paz entre colonos, indígenas e a administração da capitania era mantida pelos “resgates” que o rico donatário enviava de Lisboa e que serviam para o escambo intermediado por Romero: centenas de facões e machados, miçangas coloridas, anzóis, espelhos, etc. As trocas eram feitas entre colonos e os índios tupiniquins que circulavam pela região, uma vez que os aimorés, de hábitos mais nômades, viviam no interior da densa floresta atlântica. A paz começaria a ser rompida quando o número de engenhos aumentou – eram oito em 1546 –, exigindo mais mão de obra. Os portugueses, que já utilizavam o trabalho forçado dos chamados “índios de corda”, aprisionados e amarrados com cordas nas lutas intertribais que eles próprios estimulavam, passaram então a escravizar também os indígenas que com eles conviviam pacificamente desde que haviam ocupado a região. Um dos motivos de discórdia era Romero, por ser castelhano, além de grosseiro no tratamento com os subordinados. Ele acabou sendo preso, em 1540, por blasfemar contra um crucifixo trazido de Portugal. Tal ofensa, ouvida por colonos, foi denunciada ao vigário local. Mandado acorrentado para Lisboa, Romero permaneceu no presídio de Limoeiro. Apesar disso, retornou à Bahia em fins de 1541, graças ao prestígio de Jorge de Figueiredo, que usou de sua influência para libertá-lo, enviando-o de volta a Ilhéus, numa atitude de desafio.

Na sua volta, Romero puniu os participantes da conspiração que o levara à prisão, o que contribuiu para aumentar as desordens internas. Empenhou-se, porém, na construção de engenhos de açúcar, agora facilitada “pelos grossos cabedais” do banqueiro florentino Lucas Giraldes. O bom funcionamento dos engenhos requeria um crescente número de escravos e, como os africanos custavam caro, pois vinham de terras distantes, era muito mais econômico arregimentar indígenas, que desde o início da colonização se mostraram arredios ao trabalho escravo. Nessa época, os colonos portugueses começaram a penetrar no território dos temíveis aimorés, também conhecidos como botocudos. A reação foi imediata e, a partir da segunda metade do ano de 1546, os ataques dos aimorés tornaram-se constantes. Em pouco tempo, os nativos devastaram Ilhéus e Porto Seguro, destruindo os engenhos e matando os colonos portugueses, que logo fugiram em debandada para as ilhas de Tinharé, Boipeba e Cairu, além de outras localidades.

Quando a luta entre portugueses e aimorés ainda estava em curso, em fins de 1550, morreu em Lisboa o donatário Jorge de Figueiredo Correia. Pouco tempo depois, seu filho, Jerônimo de Figueiredo de Alarção, vendeu os direitos sobre a capitania ao banqueiro Lucas Giraldes. Romero foi destituído e, para assumir seu cargo, no Brasil, veio o feitor italiano Tomaso Alegre. Com a morte de Lucas, anos depois, seu filho, Francisco Giraldes, tornou-se senhor da capitania de Ilhéus.

DA FUNDAÇÃO AOS DIAS ATUAIS

A criação das vilas de Cairu, Boipeba e Camamu foi ordenada em 1565, pelo segundo donatário da Capitania de Ilhéus, Lucas Giraldes, ao seu procurador, Baltazar Ferreira Gaivoto, Este delegou sua fundação a João de Andrade. O objetivo, segundo Silva Campos, era “instruir núcleos de moradores brancos que constituíssem outros tantos centros de resistência às incursões do numeroso e fero gentio daquela parte do feudo, bem como de atração dos índios mansos, estes aliados dos portugueses”. Mesmo com a criação de vilas, os aimorés não perderiam o seu poder de guerrear e levar pânico à população já instalada na região. Quando isso acontecia, portugueses, mamelucos (mestiços de brancos com índios) e índios aculturados fugiam para as ilhas de Tinharé e Boipeba, uma vez que os aimorés ou botocudos não se arriscavam a entrar no mar, pois não sabiam nadar, nem possuíam canoas ou outro tipo de embarcação.

Mas, com a guerra dos aimorés deflagrada, as fundações ordenadas por Lucas Giraldes praticamente não se efetivaram, embora Cairu tenha se transformado num centro de resistência. Segundo Vilhena, foi a vila de Cairu a primeira da Comarca do Norte, “fundada em uma ilha, que terá de duas a três léguas de circunferência, situada no canal que divide a grande ilha de Morro de São Paulo da terra firme; fundaram ali aquela vila em razão dos muitos gentios que havia no continente, e tudo infestavam..” De acordo com Silva Campos, no final do século XVI, com a decadência da vila de São Jorge dos Ilhéus, os distritos de Camamu, Cairu e Boipeba constituíam a parte mais cultivada da Capitania.

Silva Campos informa que, serenada a guerra, muito lentamente vai desenvolver-se de novo a colonização portuguesa. Aqueles que haviam abandonado as terras do continente de Tinharé retornam aos poucos para a região, agora fixando-se nas ilhas de Cairu, Boipeba e Morro de São Paulo, locais que, pela posição geográfica, os protegeriam dos ataques dos aimorés, caso se repetissem. O crescimento de Cairu, segundo Campos, é desde logo apreciável. No alvorecer do século XVII, “Cairu era a estrela do litoral sul da Bahia, Boipeba, a velha Boipeba vinha em seguida”. A elevação da vila só foi efetivada em 1610, segundo várias fontes consultadas. Fruto, portanto, do desbravamento da Capitania de Ilhéus, Cairu obteve e, por muito tempo, conservou alguma importância por causa do cultivo da cana de açúcar.

O nome primitivo da ilha de Cairu era Aracajuru, que, segundo Jaboatão, na língua indígena significa “casa do sol”. O município é formado por 26 ilhas, dentre as quais se destacam Boipeba e Tinharé e, nesta última as localidades de Morro de São Paulo, Garapuá, Gamboa e Galeão. A cidade de Cairu está localizada na ilha do mesmo nome, distante 166 km de Bom Despacho, na Ilha de Itaparica.

UMA  FAMÍLIA NA HISTÓRIA DA CIDADE

Entre os primeiros povoadores de Cairu, podemos citar o fidalgo português Sebastião de Pontes, que chegou à Bahia em 1557. Homem rico, senhor de engenho no Recôncavo, fez grandes investimentos na região, construindo um engenho de açúcar na primeira cachoeira do rio Una e uma fazenda de gado, onde se situa a Ponta do Curral, no continente. Também é citado Antônio de Couros, senhor de engenho em Cairu, dono do maior engenho de cana da Capitania de Ilhéus e um dos maiores da Bahia, com grande número de escravos.

Na tradição da cidade, destaca-se, porém, entre os primeiros povoadores, o casal Domingos da Fonseca Saraiva e D. Antônia de Pádua Góes. Ele foi considerado “o primeiro dos segundos” povoadores das terras firmes de Cairu. O casal transferiu-se para o Brasil em 1563 e fixou residência na capitania de São Jorge dos Ilhéus, no tempo em que aquelas terras começavam a ser povoadas e já floresciam, dando bons lucros e melhores esperanças aos seus habitantes.. Além dos dois filhos que trouxeram, Antônia de Pádua e Simão de Araújo, o casal teve mais quatro, nascidos no Brasil: Francisca de Araújo, Maria de Góes, Catharina de Góes e Jorge de Araújo Góes.

Após vinte anos na Comarca de Ilhéus, a família foi obrigada a abandonar o engenho e as fazendas, por causa da insegurança e dos prejuízos provocados pelas constantes invasões indígenas, passando para as terras firmes de Cairu, que já davam sinais de prosperidade. Ali, Domingos e Antônia construíram novas fazendas e um engenho. O casal fez alianças, principalmente através do casamento dos filhos, com outras pessoas de origem portuguesa, a quem os governadores foram presenteando com sesmarias, como forma de promover o desenvolvimento da região. Essa família dos primeiros povoadores da vila construíram a igreja matriz, consagrada a Nossa Senhora do Rosário, e ergueram também a “capelinha” de Santo Antônio, “que depois se deu aos frades, que ali foram fundar um convento”.

A fé, a bondade e a caridade são características atribuídas à primeira grande matriarca de Cairu, Antônia de Pádua, que deixou profundas marcas na região conforme relata Jaboatão, citando anotações supostamente escritas por um neto dela, documento no qual se baseia o cronista franciscano para os relatos que deixou para a posteridade sobre os eventos ocorridos naquele tempo. Segundo esse cronista, D. Antônia, irmã da Ordem Terceira de São Francisco, parece ter dedicado sua vida a obras de caridade. Ele informa que, certa feita, o marido desconfiou que a esposa havia exagerado numa determinada esmola. Apesar das negativas de Antônia, o marido não se convenceu. Para provar sua inocência, a mulher ajoelhou-se diante do esposo, estendendo as mãos e ordenando a uma das criadas que colocasse sobre elas uma enxada em brasa, suportando a dor por muito tempo. Com essa demonstração, o marido prostrou-se a seus pés, comovido, “pedindo-lhe perdão pelo amor de Deus”.

Ficando viúva, após o casamento de suas filhas Catharina e Maria, D. Antônia dedicou-se mais ainda à sua fé, passando dali em diante a impor-se todo o tipo de mortificação, como jejuns e disciplinas. Ao morrer, aos 82 anos, D. Antônia de Pádua deixou 116 descendentes, entre filhos, netos e bisnetos que, junto com seus dois irmãos e três irmãs, povoaram boa parte da região de Cairu.

A DEFESA  DE  CAIRU

Durante o século XVII, a ilha de Cairu transformou-se em um importante centro produtor de farinha e madeira, além de possuir engenhos de açúcar. Os invasores holandeses, enquanto estiveram no Brasil, de 1624 (data da invasão na Bahia) a 1654 (data de sua expulsão de Pernambuco), aportaram no arquipélago em várias ocasiões, à procura de víveres, buscando abastecer-se em Boipeba, Cairu, Tinharé e Camamu.

Em 1631, na gestão do governador Diogo Luís de Oliveira, deu-se início à construção da Fortaleza do Morro de São Paulo, para proteger a ilha dos corsários flamengos e franceses que infestavam os mares da Colônia, principalmente após a ocupação holandesa em Pernambuco. Havia também o perigo de inimigos se apoderarem daquele estratégico porto em Morro de São Paulo. Entretanto, somente em 1664 a Fortaleza viria a ter uma guarnição fixa. A partir dessa data, assumiu um papel de destaque na defesa do litoral baiano, da Baía de Todos os Santos e da própria Cidade do Salvador, então capital da América Portuguesa. No século XVIII, Vilhena escreveu: “para defender a barra, ou entrada nesta, e evitar a comunicação para o continente se fez naquela ponta o presídio do Morro, de que a principal fortaleza monta dezoito peças e pode montar mais; correm diferentes lanços de muralha com seus ângulos salientes e reentrantes pela sapata da montanha, de forma que em partes só deixa um escasso terraplano para poder laborar artilharia, de que há alguns anos contava por todo o presídio cinquenta e duas peças de ferro”. Tempos depois, o mesmo Vilhena, já naquela época, protestava: “Acha-se aquele presídio importantíssimo, com lamentável ruína a que a negligência de muitos anos, o tem deixado chegar, quando é importantíssimo a sua conservação…”.

Rocha Pitta também se referiu à fortaleza de forma enfática: “… correndo e navegando a costa para o sul, está a importante Fortaleza do Morro de São Paulo, com baluartes e cortinas em fórma regular, estância em que reside huma Companhia paga, cujo Capitão he o cabo, que a governa. Serve de propugnáculo e defensa às Villas marítimas de Cayru, Camamu, Boypeba, e à Povoação do Rio das Contas, que são os celleiros da Bahia como o Egypto o foy do povo romano e Sicília de toda a Europa, conduzindo-se daquelas Villas a mayor parte da farinha, que se gasta na Cidade e no seu recôncavo”. Hoje, a fortaleza é um marco importante na paisagem do Morro de São Paulo, um testemunho vivo da arquitetura militar da época e da história política da Bahia.

Em 1635, novos colonos chegaram a Cairu, entre eles os descendentes do donatário da Capitania, fugindo do ataque da esquadra holandesa de Lichthardt ao porto de Ilhéus. Em 1644, o governador Antônio Teles da Silva obrigou os moradores do arquipélago a abastecer de farinha as tropas de Salvador. Em 1673, o governador Afonso Furtado proibiu o cultivo da cana-de-açúcar e a construção de engenhos na região, para não prejudicar a produção de farinha. Mas manteve o de Antônio de Couros, em Cairu, por sua antiguidade e grande prestígio do proprietário na região. Com o desenvolvimento da indústria do açúcar no Recôncavo Baiano, verdadeiro celeiro econômico do Brasil colonial, notadamente nos municípios de Cachoeira, Santo Amaro e Maragogipe, a região do Baixo Sul da Bahia foi deixando de receber incentivos por parte do governo para a sua incipiente indústria açucareira e tornou-se fornecedora de produtos como alimentos e madeiras.

TRAGÉDIA NA IGREJA

A freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Cairu foi fundada entre 1608 e 1610, sendo arcebispo da Bahia D. Constantino Barradas. Abrangia as ilhas de Cairu, Tinharé e todas as outras ilhas do arquipélago, com exceção de Boipeba, que formaria uma freguesia separada, criada em 1616. A igreja matriz, situada pouco acima do convento franciscano, numa pequena elevação, teve sua construção iniciada na primeira década do século XVII, pois já existia quando os frades menores fundaram o convento de Santo Antônio. Essa igreja foi palco de uma grande tragédia, por volta de 1670, durante um assalto de indígenas, quando boa parte da população se encontrava em seu recinto. Relata Rocha Pitta: “Costumava o Gentio bravo do Certão da Bahia dar repentinos assaltos sobre algumas Povoações remotas da cidade, com estrago das vidas e lavouras daquelles moradores”. Uma dessas invasões ocorreu na Vila de Cairu, “pela muita gente, que a habitava,,,” Para a Companhia fora nomeado o capitão Manoel Barbosa de Mesquita, que viera promovido de Lisboa em 1670. Esse cavalheiro, há poucos meses no posto, morreu bravamente em combate quando,  encontrando-se no recinto acompanhado de sete soldados, ordenou a abertura das portas e saiu intempestivamente para combater os indígenas, apesar de se encontrar em desvantagem numérica e com poucas armas para o combate. Os moradores permaneceram inertes e sem disposição para o enfrentamento e, tratando somente de proteger suas mulheres, fecharam novamente as portas da igreja. O capitão investiu contra os indígenas, primeiro disparando duas pistolas e depois avançando com uma espada e rodela. Fez várias mortes entre os indígenas, mas acabou morto com várias flechadas, o mesmo acontecendo com dois soldados que o acompanhavam, já que os outros, sob o pretexto de pedir socorro ao quartel, relegaram seus companheiros à própria sorte.

Para responder ao ataque, foi formado um grupo com homens da Fortaleza do Morro de São Paulo, ao qual se somaram soldados do Presídio da Bahia. As forças eram chefiadas pelo cabo João Amaro, “tão valoroso e destro na forma da peleja dos gentios”. Para custear as despesas, o governador pediu às pessoas ricas que ajudassem no gasto daquela empreitada. João Amaro, com poucas baixas de seu lado, realizou uma verdadeira carnificina, matando e prendendo um número incontável de indígenas. Os capturados vivos foram levados até Salvador e vendidos como escravos, a preço vil. Somente em 1723 cessaram as invasões, quando o governador Vasco Fernandes César de Menezes mandou fortificar as cabeceiras das barras de Cairu.

NOVOS TEMPOS

No século XVII, Cairu incorporou às suas atividades agrícolas o plantio do arroz. É interessante notar que, durante as obras de restauro da sacristia do convento, descobriu-se uma grande quantidade de palha de arroz sob o nicho do altar e atrás das cimalhas, mas a sua utilidade naquele local ainda é desconhecida. A vila continuou prosperando, tanto que, em 1755, por ocasião do grande terremoto que destruiu boa parte de Lisboa, “Cairu contribuiu, em 1º de novembro do mesmo ano, com a quantia anual de 166$000 (cento e sessenta e seis mil reis) por um espaço de 30 anos”. Silva Campos cita uma correspondência enviada em 8 de agosto de 1783 ao governador, pelo ouvidor Nunes da Costa, informando que havia introduzido as culturas de café e cacau nas ilhas.

A extração da madeira torna-se uma das principais fontes econômicas do município, no século XVIII, favorecida pela desembocadura de quatro rios: Una, Galé, Camuruji e Jequié, além do Mapendipe, Mutupiranga e alguns outros, que formam o canal ou golfo, “pelos quais todos se podem tirar, e tiram muitas madeiras das dilatadas matas que correm pelo continente compostas de diferentes qualidades de paus ótimos para construção de embarcações, assim como para a marcenaria, obras delicadas, e toda a construção de edifícios…”

A extração da madeira foi, até as primeiras décadas do século XIX, uma das principais fontes de riqueza da região. A devastação que provocou, porém, foi muito grande, a ponto de, em 1779, Silva Lisboa, juiz conservador das matas, clamar insistentemente contra a devastação da mata Atlântica. Esse protesto parece ter surtido pouco efeito prático, já que, em 1887, a economia local continuava baseada na atividade extrativa da madeira e da piaçava, além das lavouras de mandioca, café, cacau, arroz, cana, milho e frutas e, ainda, na pesca e na pequena criação de gado.

ESTAGNAÇÃO E DECADÊNCIA

Alguns textos antigos apontam como causa da estagnação econômica da vila, no século XIX, a “cólera eleitoral” de 1852, quando lutas internas entre políticos dividiram o povo de Cairu em dois partidos: “conservador intitulado boi e o liberal alcunhado de vacca, que se hostilizaram durante anos, guerra esta que motivou a saída de muitos bons elementos e causou a decadência e o regresso da Villa”. Porém, Vilhena já apontava a decadência da vila no século XVIII, quando escreveu: “A vila de Cairu primeira da comarca pelo Norte… em outro tempo foi habitada de nobres famílias, em que havia alguns foros de fidalguia e ainda hoje se acham envolvidos na capa da pobreza dos seus indigentes habitantes, os apelidos de Menezes, Bezerras, Barretos, Castros, Lacerdas, etc.” Porém, pode-se correlacionar a decadência de Cairu, conforme as Cartas de Vilhena, ao desenvolvimento de Camamu, que começa a assumir a liderança da região, no século XVIII. O Livro de Crônicas, já citado, aponta o falecimento do frei José do Rosário, filho de Cairu, guardião do convento, como parte integrante da “morte lenta da comunidade religiosa”.

Em 1872, a cidade contava três templos: a matriz, o convento de Santo Antônio e a capela de Nossa Senhora da Lapa, que estava em ruína, sem teto e cobertura, embora tivesse sido reconstruída pela missão dos frades Gabriel e Justino, em 1864.. A capela da Lapa “está situada à beira-mar, e tem um aspecto muito pitoresco e parecia, pelas suas alvas paredes vistas de longe, uma gaivota banhando-se à beira d’água”. O então prefeito municipal Raul Miranda, em 4 de fevereiro de 1942, encaminhou documento ao frei Guilherme Halm, tratando da “ventilada e imediata demolição da igreja de Nossa Senhora da Lapa, até agora protelada”, solicitando “a mais urgente resolução sobre o assunto…” Por esse documento, deduz-se que a capelinha foi demolida nessa época. A imagem de sua padroeira ainda hoje faz parte do acervo do convento de Santo Antônio e foi restaurada em 2001, sendo, pelas suas características estilísticas, uma peça do século XVII.

Além da igrejinha de Nossa Senhora da Lapa, algumas administrações municipais, no decorrer dos últimos cinquenta anos, também contribuíram para a demolição de diversos casarões coloniais, demonstrando pouca sensibilidade para com o patrimônio arquitetônico de Cairu. Vários moradores, seguindo o exemplo das administrações municipais, também trataram de destruir ou “modernizar” os seus imóveis, eliminando, assim, uma parcela importante da história da evolução urbana da cidade.

AS TRADIÇÕES FOLCLÓRICAS E RELIGIOSAS

As tradições folclóricas de Cairu têm raízes históricas bem profundas, uma vez que relatos antigos já fazem referência às festas religiosas, quando as cavalhadas, alardos, congos e taieiras entretinham os habitantes e visitantes por três dias, particularmente nas festas da padroeira, Nossa Senhora do Rosário.

O Reisado de São Benedito, santo mais venerado pela população de Cairu, tem sua origem em Carta Régia datada de 1777. Segundo a tradição, “um crioulo vestido de calção curto, capa bordada, sapatos de entrada baixa, de coroa e cetro, com uma crioula também enfeitada com esmero, de braceletes, colar e cordões de ouro, corre as ruas a 26 de dezembro e a 6 de janeiro, acompanhada por congos, cheganças e taieiras, e a Irmandade o vai buscar à casa e o leva ao Convento, onde o guardião o recebe à porta principal, de capa de asperges e o guia ao trono para ele colocado ao lado do Evangelho; e na procissão tem superioridade ao primeiro lugar, logo depois do pálio, e é costume darem um lauto jantar.

Os festejos em louvor a São Benedito têm início em 8 de dezembro com o levantamento do mastro, com mais de 15 metros de altura, que é erguido  em frente ao Convento, tendo no topo a bandeira com a efígie do santo nas duas faces. Antes de ser colocada no mastro, a bandeira corre toda a cidade, entrando de caca em casa, levando a bênção do santo e recolhendo donativos para a festa. Há mais de um século, segundo Isaías Ribeiro, a bandeira sai do sobrado dos descendentes do médico Salústio Palma. O evento conta com grande participação popular, ao som de cânticos, mascarados e danças. A bandeira permanece no mastro até 6 de janeiro, dia da festa dos Reis Magos.

As tradições populares, modernamente classificadas como “bens intangíveis”, até hoje enriquecem o patrimônio cultural do município de Cairu, sendo as manifestações mais importantes a zambiapunga, a barquinha e a congada, que extasiam os visitantes nas festas cívicas e religiosas, a exemplo da ex-primeira dama da França, Danielle Mitterrand, que em junho de 2008 visitou o município.

As taieiras são um grupo de mulatas vestidas de baianas, enfeitadas com colares e argolas, e de mulatos vestidos com calça branca, tórax nu, ornados com colares, que saem às ruas cantando a canção Ô Lê Lê Ô, sucedida por um breve samba de roda realizado às portas das casas, acompanhado por um único tambor-solo. Os cânticos, embora façam referência a São Benedito e a Nossa Senhora do Rosário, são de natureza mais livre e bem humorada, descomprometidos de um ritual rígido, como é o caso da chegança e dos congos.

Os congos são um grupo formado por homens negros que saem às ruas no Natal e no mês de janeiro, durante a festa de São Benedito. A indumentária inclui camisa rendada e saiote de chita vermelha ou azul, enfeitado de estrelas e sustentado por armação de arame. Na cabeça, os congos trazem uma coroa adornada com duas penas vermelhas. Todos os componentes tocam o ganzá, instrumento de bambu friccionado por uma vareta, com exceção do chefe, o qual toca, com a baqueta, o que chamam de tamborim, um grande adufe quadrado de face única, seguro por um cabo de madeira.

A zambiapunga é formada por um grupo misto que faz uso de máscaras muito originais, confeccionadas em papel machê, e vestes improvisadas. Como instrumentos sonoros, utilizam-se enxadas, produzindo-se ritmos e sonidos muito particulares. Além dessas tradições, podemos citar o bumba-meu-boi, que sai às ruas após as festas em louvor a São Benedito, os ternos de reis e a dondoca. Durante o carnaval, realiza-se a já tradicional lavagem da reversa, nas proximidades da Câmara Municipal.

No dia 2 de julho, em comemoração à independência da Bahia, tem início o samba dos índios, que dura três dias. É uma variante do candomblé de caboclo, com ligações com as tradições africanas. A vila de Cairu teve participação ativa nas lutas pela independência da Bahia, ao lado de Camamu e Valença, apoiando cachoeiranos e maragogipanos para a expulsão dos portugueses, o que de fato ocorreu em 2 de julho de 1823.

POTENCIAL  TURÍSTICO

A unidade político-administrativa da capitania de Ilhéus foi rompida, em 1833, com a criação das comarcas de Valença, da qual fazia parte Cairu, e a de Ilhéus. A vila de Cairu só foi elevada à categoria de cidade em 30 de março de 1938, pelo decreto-lei estadual no 10.724. Cairu é hoje uma cidadezinha simpática e tranquila, dormindo sobre as recordações de um passado longínquo, quando as riquezas do solo – extração de madeira e piaçava, além do cultivo da cana, arroz e mandioca – promoviam a prosperidade e o desenvolvimento. O município todo, segundo dados do IBGE/2017, conta com uma população de 18.224 habitantes. Cairu é a sede do único município arquipélago do país, formado por 26 ilhas, das quais se destacam Tinharé, onde se situam a bela vila do Morro de São Paulo e a Gamboa do Morro, polos turísticos já bastante consolidados, e a ilha de Boipeba, com suas praias paradisíacas e quase virgens.

O município tem, no turismo, um potencial capaz de produzir profundo impacto na economia, o que já vem ocorrendo, com a afirmação do Morro de São Paulo e de Boipeba como atrações nacional e internacionalmente conhecidas. Nesse setor, o patrimônio histórico exerce, ao lado das belezas naturais e tradições folclóricas, um forte apelo. A restauração completa do monumental convento franciscano de Santo Antônio criará condições para que a cidade de Cairu se integre a esse fluxo, devido a ser a primeira e mais importante construção arquitetônica de inspiração barroca no Brasil. Também a entrega do Forte de Tapiramandu, em Morro de São Paulo, totalmente reformado, compõe esse original acervo histórico-cultural para o turismo da vasta região Baixo Sul da Bahia.

Com a descoberta e a exploração de gás e de petróleo na costa oceânica do município, fortalecem- se as finanças da prefeitura de Cairu através do recebimento de royalties, abrindo-se novas perspectivas vocacionais do arquipélago. Conforme relato do Sindicato Patronal Rural de Cairu, encaminhado pelo seu vice-presidente Manoel Altivo, uma das lideranças locais, “Cairu conta com um Plano Estratégico patrocinado pelo BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, sob demanda da Universidade Livre da Mata Atlântica e do WWI – Worldwatch Institute. Tal instrumento, denominado CAIRU 2030, foi entregue ao governo municipal e à comunidade em solenidade realizada na própria Igreja de Santo Antônio, em 2006.

O CONVENTO DE CAIRU

Convento e Igreja de Santo Antônio formam um importante complexo edificado no alto da cidade. Sua construção se iniciou em 1654 e levou um século para ser terminada. A fachada da igreja é considerada uma obra-prima, sendo a primeira manifestação do Barroco arquitetônico no Brasil, e um expressivo e influente exemplo da arquitetura franciscana no país, imitada em vários outros templos nacionais. Seu interior foi extensamente reformado no século XIX, perdendo-se grande parte da luxuosa decoração original, embora sobrevivam muitos elementos autênticos que dão uma ideia da primitiva suntuosidade do conjunto. O convento tem uma decoração mais sucinta, mas também possui vários espaços bastante ornamentados e, em geral, suas condições se preservam mais íntegras. Pela sua importância histórica e artística, o complexo foi tombado pelo IPHAN em 1941.

A origem do conjunto é anterior à chegada dos franciscanos à antiga povoação de Cairu. Antes de 1650, já se registrava a existência de uma capela privada nas proximidades do atual convento, construída pelo casal Domingos da Fonseca Saraiva e Antônia de Pádua Góes. Esta capela era às vezes utilizada por frades franciscanos itinerantes e, em seu redor, eles começaram a construir pequenas celas como dormitório. Em janeiro de 1650, o Custódio dos franciscanos, o frei Sebastião do Espírito Santo, atendendo ao pedido de moradores da região, enviou três companheiros para fundarem um convento no local. Foram eles Gaspar da Conceição, João da Conceição e Francisco de Lisboa, que foram recebidos com festa e instalados em uma ermida junto à Matriz. Em 21 de março, o convento foi, então, fundado na forma de uma estrutura de taipa.

A construção definitiva em alvenaria, porém, só foi decidida em 1653, sendo indicado como mestre das obras o frei Daniel de São Francisco. A pedra fundamental foi lançada em 25 de agosto de 1654. Como o financiamento dependia quase exclusivamente das esmolas da comunidade, que não era rica, as obras se arrastaram por longos anos e sua história inicial é mal documentada. Porém, uma parte significativa da estrutura deve ter sido finalizada já em torno de 1661, a partir de uma data que se encontra gravada na verga da porta que interliga a sacristia e a capela-mor. A fachada deve ter sido concluída antes de 1686, data inscrita no frontão do convento de Paraguaçu, que foi inspirado neste, de Cairu. Essa celeridade pouco usual permitiu que o conjunto mantivesse uma notável unidade estilística. Mas o restante e as decorações tardaram até cerca de 1750 para serem terminadas.

Depois de um período de apogeu no século XVII, os franciscanos começaram a experimentar crescentes dificuldades e, no século XIX, a Província franciscana no Brasil quase foi extinta. Desta maneira, os edifícios começaram a se degradar. Após 1878, com a chegada de frades alemães, iniciou-se uma lenta recuperação e foram feitos esforços para manutenção e restauro do complexo, mas, seguindo as novas modas estéticas, muito de sua decoração interna barroca foi alterada para padrões neoclássicos. O tombamento pelo IPHAN, em 1941, contudo, não evitou outras perdas e, na década de 1960, o altar de Santa Rosa desabou. A partir de 1963, iniciaram novas obras de restauro, já sob uma orientação mais científica, concluídas somente em 1973. Em 2002, foram realizadas outras intervenções e, recentemente, o complexo e seu entorno foram novamente parcialmente restaurados, sob a coordenação do IPHAN e do Programa Monumental, com financiamento da Petrobrás, mas, em 2010, as obras foram paralisadas sem justificativa. O Ministério Público Federal instaurou, em 2012, um processo investigativo.

O complexo arquitetônico se divide em um convento e a igreja de Santo Antônio, diante da qual se abre um largo onde se ergue um cruzeiro. Anexa está a capela da Ordem Terceira, que nunca foi concluída e sobrevive apenas em ruína. O principal interesse repousa na igreja, considerada a primeira do Brasil a exibir traços barrocos – aparentemente antecedendo até mesmo a introdução do estilo na Metrópole portuguesa – com seu perfil característico, não tem similares na arquitetura barroca de toda a Europa. Seu valor é atestado também através dos vários templos brasileiros que surgiram em rápida sucessão inspirados em seu desenho, como os templos homónimos em Paraguaçu e Recife. Apesar disso, ainda é pouco conhecido do grande público, é pouco divulgado nos livros de história da arte nacional e são escassos os estudos especializados a seu respeito.

História econômica

Cairu é o único município arquipélago do Brasil. Está localizado no litoral do território do Baixo Sul da Bahia, ocupando uma área, segundo o IBGE, de 461 Km². Dados do IBGE/2017, revelam que o município tem uma população de 18.224 habitantes, com densidade demográfica de 33,33 habitantes por quilômetro quadrado. O município apresenta uma peculiaridade em termos populacionais: os moradores estão distribuídos em 13 povoações nas três principais ilhas do arquipélago. Na ilha de Tinharé, ficam Morro de São Paulo, Zimbo, Gamboa do Morro, Galeão, Garapuá, Batateira, Senzala e Canavieiras. Na Ilha de Cairu está o centro administrativo do município, a cidade de Cairu, Torrinha e Tapuias. Na Ilha de Velha Boipeba estão: Boipeba, Monte Alegra, Moreré e São Sebastião. Cairu, sede, Morro de São Paulo, Gamboa e Boipeba, têm cada um desses, aproximadamente, um quinto da população do município.

O IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgou no dia 10 de dezembro de 2010, ranking do PIB per capita dos municípios brasileiros. Cairu figura como o segundo maior PIB da Bahia, R$ 1.201.881 mil, sendo o PIB per capita de R$ 67.787,99.

Este município, que no passado englobava o território onde hoje se situam os municípios de Nilo Peçanha, Taperoá e Valença, já produziu mandioca, feijão e milho, migrando gradativamente para a produção de fumo em substituição à de mandioca, no início do século XIX, conforme citam, Silva, 1990 e Schwartz, 1985.

Cairu desenvolve várias atividades econômicas, destacando-se o turismo, pesca, extrativismo vegetal e, recentemente, a exploração de gás natural do Campo de Manati.

PIAÇAVA –  é o principal produto agrícola do município, nativa do litoral baiano, a piaçaveira coloca Cairu entre os principais produtores do produto, empregando centenas de pessoas, de baixa escolaridade, sem carteira assinada e precariamente remuneradas. As fibras da piaçaveira já foram utilizadas, inclusive, para fazer cordas de amarração dos navios nos tempos coloniais e os índios as utilizavam para cobrir seus abrigos. A palmeira nativa é endêmica da Mata Atlântica do Baixo Sul da Bahia, única no mundo. Sua semeadura acontece de forma natural, como antes da chegada dos portugueses a estas terras. Raramente é plantada pelo homem, é espalhada pela cotia, roedor típico da região, que se alimenta de suas sementes e as guarda, enterrando-as no chão.  Apesar de Cairu despontar como grande produtor de piaçava, as fibras da palmeira saem do município como matéria prima de vassoura e cobertura para quiosques. Resta ainda o potencial como matéria prima para o artesanato, o que ainda não é devidamente explorado, exceto em Morro de São Paulo. Com isso, o valor agregado ao produto acontece bem longe das terras de Cairu.

DENDÊ – presente em praticamente todas as cozinhas, pelo menos do litoral baiano e nos tabuleiros das baianas do acarajé, o dendê também é cultivado em Cairu, em pequena quantidade. Por não serem empregadas técnicas de cultivo e,. até mesmo, o replantio dos dendezeiros, a produtividade é baixa. Mesmo assim, consegue-se gerar alguns postos de trabalho, embora sazonais e com as mesmas fragilidades que a mão de obra da piaçava, uma vez que o trabalho do corte de dendê é realizado pelos mesmos catadores de piaçava.

COCO – o coco da Bahia, refrigério dos dias quentes de verão nas badaladas praias de Morro de São Paulo e Boipeba, também encontra terras férteis para produzir no município de Cairu.

PESCA – esta é uma das principais atividades econômicas do município, envolve os pescadores artesanais e marisqueiras, que sobrevivem da cata e da pesca dos frutos do mar. Pelos rios que recortam as terras e dão forma ao arquipélago de Cairu, ou em mar aberto, a pesca é umas das principais fontes de renda ou de complemento alimentar para os habitantes do município. Os moradores desfrutam ainda de vastas áreas de manguezais, de onde extraem várias espécies para sua subsistência, a exemplo, do caranguejo, aratu, ostras, além dos siris e de diversos tipos de peixes. Os pescadores e marisqueiras utilizam canoas e barcos para ter acesso aos pesqueiros e manguezais onde praticam suas atividades, utilizando as redes e as camboas, cercados de varas em trechos do mar onde a maré, ao subir, retém vários tipos de pescado, que são capturados na maré baixa.

TURISMO – destaque Internacional como atrativo turístico, o terceiro mais visitado da Bahia, Cairu faz parte do território de identidade Baixo Sul da Bahia , na área turística denominada Costa do Dendê. Recebe anualmente milhares de turistas, de várias partes do Brasil e estrangeiros, gerando assim excelente oportunidade para os empresários da área hoteleira, restaurantes e outros comerciantes que se estabelecem, principalmente em Morro de São Paulo e, mais recentemente, em Boipeba, onde também tem crescido o fluxo turístico. Outras localidades começam a despertar o interesse dos visitantes: Garapuá é uma delas.

GÁS NATURAL – a descoberta do campo de Manati, pela Petrobrás, em 2000, trouxe expectativas para o município, mas só em 2007 é que o gás natural começou a ser prospectado. Situado a cerca de dez quilômetros de distância da costa do município de Cairu, numa profundidade de 35 a 50 metros, quando em plena operação, produz seis milhões de metros cúbicos de gás, gerando royalties para o município, que são investidos em obras de infraestrutura, o que aumenta o valor dos imóveis no arquipélago, gera empregos na construção civil, além do incremento aos outros empreendimentos no setor de serviços de hospedagem, alimentação e transportes, atraindo mais turistas.

COMÉRCIO – o comércio não é significativo, sobretudo na sede. Praticamente a maioria dos produtos consumidos em Cairu é adquirida na cidade de Valença, tornando-a o centro comercial do arquipélago.

Referências bibliográficas:

RISÉRIO, Antonio . Tinharé – História e cultura no Litoral Sul da Bahia. Salvador BYI Projetos Culturais LTDA, 2003.

O CONVENTO FRANCISCANO DE CAIRU, DISPONÍVEL EM: www.iphan.gov.br | www.monumenta.gov.br | www.cultura.gov.br

CRONOLOGIA HISTÓRICA DE CAIRU- BAHIA

por Janete Pereira de Sousa Vomeri

(com acréscimos e atualizações por Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo)

SÉCULO XV E ANTERIORES – antes da chegada dos colonizadores – região habitada pelos tupinambás e tupiniquins, índios da família linguística tupi-guarani, que povoavam a costa brasileira e se sobrepuseram às outras famílias arcaicas do litoral por dominarem a agricultura e serem antropófagos. Outras tribos, denominadas de tapuias ou bárbaros, por não falarem a língua tupi-guarani ou por serem procedentes do sertão, viviam constantemente em guerra contra os habitantes desta região. Dentre esses, destacam-se os aimorés ou botocudos, selvagens nômades, muito ferozes, não plantavam, por isso viviam atacando as roças de mandioca e outros alimentos dos índios do litoral, sendo por eles presos e devorados nos rituais noturnos.  Quando não se embrenhavam pelo sertão a dentro, voltavam e atacavam novamente, sendo um dos grupos mais resistentes ao contato com o colonizador e à escravização. Os tupinambás e tupiniquins, mesmo sendo antropófagos, aceitaram a presença do colonizador porque viram nele uma forma de vantagem com as trocas de comida que produziam em suas roças, por quinquilharias desconhecidas e também por usufruírem de uma certa relação de poder face aos tapuias. O interesse dos portugueses nesta região era tê-los como fornecedores de alimentos e de embira, espécie de cipó de amarração, muito resistente à água, assim como conhecimento da fauna, flora e minerais de onde pudessem extrair vantagens e comércio. Essas tribos possuíam o segredo da eliminação do veneno da mandioca, base alimentar dos nativos e os portugueses, distantes do fornecimento de víveres, precisavam dessa relação estabelecida como escambo. Também dominavam a extração de crustáceos e mariscos, além de peixes, nos manguezais e canais mais rasos da região. Não se aventuravam ao mar aberto, porque só detinham domínio de águas rasas, em canoas, fabricadas a mão.

INÍCIO DO SÉCULO XVIeuropeus fazem contato / período colonial

1526– Castelhanos[1] chegam a Ilha de Boipeba, após naufrágio, e são massacrados pelos índios, por isso a ponta recebeu o nome de Ponta dos Castelhanos. Diogo Álvares Correia, o Caramuru, outro náufrago português que morava entre os índios na Ilha de Itaparica, chega a Boipeba e encontra a imagem de Nossa Senhora das Graças, entre os destroços do navio.

1530 – Avistado o arquipélago de Tinharé, por Pero Lopes de Souza, que chega até a embocadura do rio Una, a que chamou de rio Tinharea, em expedição de exploração e reconhecimento da costa brasileira comandada por Martim Afonso de Souza, capitão-mor da Coroa Portuguesa.

1531 – desembarque de Martim Afonso de Sousa no Morro de São Paulo, que registrou em seus documentos como Ilha de Tinharé;

1533 – criada a Sesmaria, como parte da Capitania de Ilhéus, doada a Jorge de Figueiredo Correa, por Martin Afonso de Sousa, sendo seu administrador Francisco Romero, que iniciou a povoação;

1535 – Francisco Romero e a populaçäo local fundam a Vila de Morro de São Paulo, situada ao extremo norte da ilha.

1565 – criadas vilas como Cairu, Boipeba e Camamu, mas as lutas contra os indígenas impediram a efetivação dessas fundações.

1610 – construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e implantação da Vila de Cairu;

1624 – sesembarque do comandante Johan Van Dortt e sua esquadra na ilha durante a rota para Salvador (Invasão Holandesa)

1626 – fundação da Igreja de São Francisco Xavier;

1628 – o almirante holandês Pieter Pieterzoon Hiyn lidera o ataque e saqueamento da vila.

1631 – o Governador Geral, Diogo Luiz de Oliveira, inicia a construção da Fortaleza do Morro de São Paulo, o Forte Nossa Senhora da Conceição.  (Forte Velho).

1644 – o governador Antônio Teles da Silva obriga os moradores do arquipélago a abastecer de farinha as tropas de Salvador.

1654 – instalação do Convento franciscano de Santo Antônio;

1664 – instalação de uma guarnição fixa na Fortaleza do Morro de São Paulo .para proteção do próprio local, da Bahia de Todos os Santos e de Salvador.

1673 – o governador Afonso Furtado proíbe o cultivo da cana-de-açúcar e a construção de engenhos na região de Cairu, para não prejudicar a produção de farinha e não concorrer com os do Recôncavo. Mantido o de Antônio de Couros, por sua antiguidade e tamanho.

1728 – término da construção do Forte da Ponta e cortinas de muralha ao longo da ilha. Derrota do Almirante francês Villegaignon pelas tropas lusitanas.

1730 – Fortaleza do Morro (Forte Novo ou de Tapiramandu) – construção situada no Conjunto de Ilhas de Tinharé, cuja principal função era defender o canal do mesmo nome, por onde escoava a produção e evitava a invasão de embarcações inimigas como: as holandesas. (conforme Diário ao Norte do Brasil, de D Pedro II, edição centenária de 1959: p.35);

1743 –  o vice-rei André de Melo e Castro, conde das Galveias,  manda construir  a Fonte Grande, com três bicas.  A edificação  fazia parte do sistema de abastecimento de água, tombado pelo Patrimônio Histórico em 1943. (O Imperador D Pedro II bebeu desta fonte, conforme ( D Pedro, 1959, p;39);

1746  término da  construção da Fonte Grande, o maior sistema de abastecimento de água da Bahia colonial.

1755 – Cairu contribuiu com 166$000 (reis) anualmente, durante três décadas para a reconstrução de Lisboa após terremoto, nesse mesmo ano;

1799 – Valença desmembra-se de Cairu e se torna Vila do Sagrado Coração de Jesus;

1780 – o ouvidor da Comarca, residente na Vila de Cairu, era também o fiscal sobre o corte de madeira de lei;

1811 – presença de escolas formais de primeiras letras e gramática. Nessa mesma data, foi transferida para Valença a escola de primeiras letras e permaneceu no convento a escola de gramática para os filhos dos poderosos (OLIVEIRA, 1985.

PERÍODO NACIONAL – Brasil como nação

1823 – Cairu participa, doando mantimentos e força armada, para as lutas pela Independência da Bahia;

1833 – rompimento com a unidade administrativa de Ilhéus, com a criação das Comarcas de Valença, (da qual fazia parte Cairu) e a de Ilhéus;

1845  – conclusão das obras da  capela de N. Srª da Luz.

1855 – Eng. João Monteiro Carson, mesmo engenheiro da Fábrica Todos os Santos, de Valença, finaliza as obras do Farol do Morro de São Paulo.

1859 –  visita do imperador D Pedro II e da Imperatriz, em 5 de outubro desse ano.  A visita ocorreu no Morro de São Paulo e Gamboa. ( Diário ao Norte do Brasil, 1959: p 37)

1938 – através do decreto-lei estadual  nº 10724, de 30 de março de 1938, torna-se cidade. Porém, o dia da cidade é comemorado em 07 de outubro, conforme lei municipal Nº 315, de 2010;

1942 – período em que o mundo vivia as batalhas sangrentas e o horror do holocausto na II Guerra Mundial. Nesse ano, o submarino alemão U-507 torpedeou, entre as costas do Morro de São Paulo e Guaibim, os navios “Itajiba” e “Irará”, sendo os passageiros e tripulantes  salvos pelo barco “Araripe”, parte levados para o Morro e os em pior estado, para Valença; (MOUTINHO, 2006)

1992 – criada a APA (Área de Proteção Ambiental) de Tinharé/Boipeba, que engloba as duas ilhas.

2006 – o projeto CAIRU 2030 é entregue pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) à Prefeitura de Cairu.

2007 – início da exploração de gás natural no campo de Manati, na bacia sedimentar de Camamu, na costa de Cairu, que se estende por 76 quilômetros quadrados, a 35 metros de profundidade, no oceano.

2009 – aprovada a recuperação da Fortaleza do Morro de São Paulo, concluída em 2017.

 [1] Castelhanos – Espanhol (español) ou castelhano (castellano) do pais do Reino de Castela(presente no norte da Espanha), nome dado aos espanhois no periodo da Idade Média.

HINO DE CAIRU

Letra: Hiberlúcio Souza
Melodia: Railto e H. Souza

Entre ilhas mares e montes
Sob raios de sol e céu azul
Despontas abrindo horizontes
Gleba querida, oh, meu Cairu

Teus campos produzem riquezas:
Dendê, piaçava e madeira
Tu és grande por natureza
Cairu, oh, cidade altaneira

Morro de São Paulo e suas fortalezas
Lindas praias e belos coqueirais
Cairu és fonte de beleza
Teu passado orgulho nos traz (bis)

Com bravura de índios e brancos
E Senhora do Rosário a proteção
Cairu deu um passo na história
Salve, salve, a emancipação

Do Brasil aqui nasceu a história
Um cenário de raríssimo esplendor
Cairu és luta e glória
És ternura, encanto e amor

Morro de São Paulo e suas fortalezas
Lindas praias e belos coqueirais
Cairu és fonte de beleza
Teu passado orgulho nos traz (bis)

 

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.