Valença, a terra do Una: a história da capital do Baixo Sul
Pesquisa e organização: Rosângela Góes

Foto: Madger William
Os habitantes originais de Valença foram os tupiniquins, mesmo grupo indígena com o qual se deparou a esquadra portuguesa de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, em 23 de abril de 1500. Além deles, também viviam os tupinambás, que conheciam a agricultura e eram hábeis nas artes da guerra. Antes deles, houve os Tapuias, designação dada aos grupos indígenas que não falavam a língua tupi-guarani. Os tupis os chamavam de “bárbaros” e viviam em constante guerra com eles.
A história do povoamento das terras que vão de Valença a Camamu registra ainda a presença de outro grupo tapuia – os “aimorés”, que mais tarde se tornariam conhecidos também pela designação de “botocudos” ou “gueréns”. Estes infernizaram a vida dos portugueses nos primeiros tempos coloniais, levando pavor, morte e destruição à região. Segundo relatos antigos, os aimorés eram praticamente imbatíveis nas matas. Os botocudos/gueréns (ou aimorés) eram assim chamados por usarem botoques labiais e auriculares.
Logo depois da chegada dos portugueses, em 1500, houve o início de um ciclo de exploração do pau-brasil, madeira que teve grande valor comercial na Europa devido à extração de tintas para tecidos. Quando D. João III, rei de Portugal, determinou a ocupação e povoamento do Brasil, dividindo-o, em 1532, em Capitanias Hereditárias, esta região ficou, então, pertencente à Capitania de São Jorge dos Ilhéus, doada a Jorge de Figueiredo Correia, em 26 de junho de 1534, sob a jurisdição da Vila de Nossa Senhora do Rosário de Cairu, local onde se fez o primeiro povoamento. Portanto, toda a história colonial de Valença se compõe da história de Cairu, município ao qual pertenceram as terras continentais do Una, somente desmembradas no último ano do século XVIII, com a elevação de Valença à categoria de vila.
Em 1557, data que marca a chegada do fidalgo português Sebastião de Pontes, estas terras já eram conhecidas como “Terra de Una” devido a uma denominação indígena do rio, que significa negro, escuro, uma referência à cor enegrecida de suas águas pela matéria orgânica dos mangues.. Acerca dos acontecimentos dessa época, assim relata Oliveira: Em 1557, os terrenos ao sul do rio Jiquiriçá, que estabelecia o limite entre as Capitanias da Bahia e de Ilhéus e hoje define o limite entre os municípios de Valença e Jaguaripe, foram doados em sesmarias. A região de Valença, com fazendas de gado, canaviais e mantimentos, destacava-se com dois engenhos, pertencentes a dois sesmeiros: Sebastião de Pontes, no Rio Una, e Fernão Rodrigues de Souza, no Rio do Engenho, antigo Galé (OLIVEIRA, 2006). Prossegue Oliveira, detalhando a ocupação da época, com muitos moradores do Una em fazendas, sendo uma delas na primeira cachoeira do rio, onde hoje está a Companhia Valença Industrial, a treze quilômetros da ponta do Curral. Nesse local, Pontes construiu um grande engenho com duas moendas de água, uma igreja denominada São Gens, com três capelas de abóbadas e um curral na entrada do canal de Taperoá, no local denominado Ponta do Curral, por ali possuir uma fazenda de gado.
Segundo a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (IBGE, 1958, v. 2), a administração de Pontes se caracterizava pela prepotência e violência exemplificadas através de cruéis castigos que aplicava aos servos, fossem brancos ou índios. Ao se casar com uma nobre portuguesa, irmã de Simão Gama, comandante de uma grande esquadra que veio, em 1550, povoar Salvador, recebeu o título nobre de fidalgo da Corte, crescendo seu poder a ponto de ele próprio intitular-se “Primeiro Rei do Brasil”, o “Rei do Una”, mandando marcar seus animais com ferros cujas iniciais eram “R” e “U”.
Em 1573, conforme ainda a citada Enciclopédia, em virtude da violência com que tratava índios, brancos e pobres, Sebastião de Pontes foi o pivô de um conflito entre o Bispo D. Antônio Barreiros e o Governador Geral da Colônia, Luís de Brito. Após surrar um homem branco, Pontes marcou-o no ombro com o ferro de ferrar gado. Embarcando para Lisboa, esse homem denunciou o agressor à Regente Catarina – o príncipe Sebastião, filho de D. João III, era menor de idade – quando a família real ia à missa, deixando o ombro à mostra para ser vista a marca do ferro e pedindo-lhe justiça, também denunciando que o seu algoz, na Capitania de Ilhéus, se intitulava Rei. Considerado como crime de lesa-majestade, a Regente determinou ao Governador Geral a prisão de Pontes. Cumpridas as ordens reais, Sebastião de Pontes foi preso e enviado a Lisboa, onde, condenado à prisão perpétua – salvo da forca, por ser nobre – morreu na cidade de Limoeiro, em Portugal. Sua prisão, conforme relata Aguiar (1979), ocorreu numa armadilha. De volta aos seus domínios do Una, o fidalgo português foi convidado a subir a bordo de um navio mercante ancorado no Morro de São Paulo. Na verdade, era uma nau militar disfarçada, enviada pelo Governador Geral, temeroso de enfrentar Pontes no local onde possuía considerável força armada. Atraído a bordo com um almoço, foi metido a ferros e enviado a Lisboa.
Segundo RISÉRIO (2003), o avanço da colonização até pouco mais da metade do século XVI se deu graças aos acordos de paz firmados entre portugueses e indígenas. Foi assim que os tupiniquins acabaram se transformando em fornecedores de gêneros alimentares às vilas da Capitania: farinha de mandioca, peixes, caça e frutas. Contudo, a derrocada e prisão de Pontes foi um fato detonador de novo ciclo de dominação indígena e resistência ao processo colonizador. Mas não foi o único. Cinco anos antes, uma epidemia de varíola, a “bexiga”, como a peste era chamada, trazida pelos portugueses, produziu grande mortandade entre os índios tupinambás pacificados da região – únicos que conheciam as táticas de guerra contra os aimorés/botocudos – fazendo desaparecer boa parte daqueles inimigos naturais destas temíveis tribos. Em resposta à carência de força de trabalho, à fome que se seguiu em decorrência da paralisia das lavouras, os colonos partiram à caça, apresamento e escravização de outros bandos indígenas. Veio assim a reação dos aimorés ou botocudos, também chamados gueréns, que circulavam então pelos campos interioranos. Dessa forma, com as baixas tupinambás na região e a saída de Pontes, os chamados botocudos não encontraram resistência ao se instalarem novamente na capitania, a partir de 1574. De índole bravia, impediram, por muito tempo, a colonização do território de Valença.
Na obra de Waldir Freitas Oliveira, A Industrial Cidade de Valença – um surto de industrialização na Bahia do século XIX (1985), registra-se que, durante o governo do Marquês de Valença (1779/1783), grandes melhoramentos foram feitos na região. Além da abertura de estradas, D. Afonso Miguel de Portugal e Castro incentivou a cultura do arroz, que já existia, e introduziu a cultura do café (coffea arábica) e do cacau (theobroma cacao).
O nascimento da atual cidade de Valença – segundo documentos assentados na Biblioteca Nacional, Registros Históricos, volume XXX – 1690 a 1693, a partir de 1692, formaram-se numerosas companhias de bandeirantes paulistas para combater o “flagelo” dos índios que se organizavam e resistiam à colonização. Para a Capitania da Bahia, em 1693, veio o sertanista João Amaro Maciel Parente, com numeroso séquito, a fim de combater a terrível nação dos gueréns, ou aimorés, cujos ataques retardavam e, em alguns locais, até impediam a colonização dos territórios. Essa guarnição instalou-se num arraial próximo à barra do Jaguaripe, onde permaneceu queimando aldeias e aprisionando os gentios, daí partindo para o Rio Grande do Norte. Possivelmente, esse arraial se localizou na região de Mapendipe, onde se encontram as ruínas de uma ermida, na antiga área denominada Fazenda dos Eucaliptos, estrada Valença /Nazaré. Por volta de meados do século XVIII, teve-se a chamada “última guerra” dos gueréns-aimorés, de 1749 a 1755.
Em 1750, sob a direção do frei Bernardino de Milão, teve início a construção da Capela do Amparo, na parte mais elevada da povoação do Una, onde hoje está a igreja de Nossa Senhora do Amparo. Em volta da capela, assentados, os índios gueréns. Mais tarde, devido a hostilidades com os outros moradores, foram relocados a seis léguas dali, na Aldeia de São Fidélis, onde ainda hoje existe a capela na localidade do mesmo nome. O povoado do Una se desenvolveu rapidamente. A madeira para a construção naval, o extrativismo de alguns produtos e da pesca atraíram muitas pessoas. Em 1754, já existiam 50 casas e 450 pessoas em volta da capela do Amparo e o povoado cresceu em direção ao rio Una (OLIVEIRA, 2006).
Em maio de 1769, nasceu Bernardino de Sena Madureira, que se tornaria Capitão-Mor de Valença e uma das principais lideranças da região no século XIX. Rico e poderoso, construiu o palacete que se tornou sede do Paço Municipal, onde hoje funciona a Câmara Municipal de Valença, um dos símbolos da identidade arquitetônica da cidade. Esse palacete viria a hospedar o Imperador D. Pedro II e a Imperatriz, no período de 21 a 25 de janeiro de 1860, em visita a Valença para conhecer a Fábrica Todos os Santos. Os três filhos do Comendador Madureira – Bernardino, Casimiro e Izidro, o Barão de Jiquiriçá, tiveram grande influência na história de Valença no século XX.
Devido a grande progresso, em 1799, o Desembargador Baltazar da Silva Lisboa, Ouvidor da Comarca de Ilhéus, propôs ao governo a elevação do povoado à categoria de vila. Aprovada a proposta, foi determinada, pela Carta Régia de 23 de janeiro de 1799, a criação da Vila de Nova Valença, freguesia do Sagrado Coração de Jesus, com território desmembrado de Cairu. Em 10 de junho de 1799, com a eleição e posse de sua primeira Câmara de Vereadores, a vila foi juridicamente instalada. Em 1832, foi constituída em Comarca e, por Lei Nº 368, de 10 de novembro de 1849, foi-lhe dado o título de Cidade de Valença. O nome, Valença, foi uma homenagem ao quarto Marquês de Valença, ex-governador da Colônia, D. Afonso Miguel de Portugal e Castro, natural de Valença, cidade portuguesa junto ao rio Minho.
Em 1801, no lugar onde havia uma casa de orações de taipa, começou a ser erguida a nova Igreja Matriz do Santíssimo Coração de Jesus, fundada pelo Desembargador Baltazar da Silva Lisboa. Construída por fora da antiga capela, pela grandiosidade, rivalizava com os maiores templos da capital. Concluída em 1825, obedece ao modelo tradicional jesuítico luso-brasileiro, numa imitação das igrejas de São Roque, em Lisboa, e Espírito Santo, em Évora, segundo o Boletim do Instituto Histórico Geográfico e Etnográfico Paranaense (1979).
O século XIX e o surto de desenvolvimento em Valença – Em 1808, já existiam 5.000 habitantes em Valença, que se dedicavam ao corte da madeira, às lavouras de café, mandioca e arroz, exportando para a capital por embarcações. Em Oliveira (2006), registra-se a abertura de uma estrada pelo litoral, de Valença até o rio Doce, sendo encarregado da obra o Conselheiro Baltazar da Silva Lisboa. O mesmo autor relata ainda que o crescimento da população levou o Conde da Ponte, que governou a Bahia entre 1805 e 1810, a ordenar a obrigatoriedade do uso da vacina contra a varíola no município, escrevendo à Câmara Municipal para que desse todo apoio ao cirurgião Luiz Francisco de Araújo, encarregado da vacinação, que veio residir em Valença.
Também nesse período, em 1811, numa decisão do Governador D. Marcos de Noronha e Brito, o Conde dos Arcos, Valença recebeu sua escola de primeiras letras. Outro fato relevante foi a criação de novas vilas na região. As terras de Valença ficaram situadas no trecho que vai do rio Jiquiriçá, até o rio Galé, assim chamado por ter sido via de tráfico escravista. Atual Graciosa, essa localidade ficou sendo a divisa de Valença, uma vez que o povoado de Taperoá – que tinha sido fundado por jesuítas – foi desmembrado da então Vila de Valença, ficando incorporado à Vila de Nova Boipeba.
Erguem-se construções no centro da cidade, como o conjunto dos nove sobrados construídos pelos irmãos Regis e Ferreira, ocupando toda a lateral de uma antiga lagoa aterrada, onde hoje está a Praça da República, restando hoje apenas 3 deles. Outra edificação imponente da época é a casa de Zacharias de Gois e Vasconcelos, valenciano ilustre, nascido em 1815, na Praça da Triana, que se tornou Conselheiro do Império e primeiro Presidente Provincial do Paraná. A casa de 2 pavimentos foi construída em 1807 e obedecia ao padrão de serviços e comércio no térreo, a residência no segundo andar e escada no hall central, conforme era nas residências nobres. Foi desapropriada em 1947 e doada ao Estado para ser transformada no Fórum Zacharias de Gois e Vasconcellos, sendo essa denominação alterada para Fórum Rui Barbosa e, posteriormente, para Gonçalo Porto de Souza. Sobre o dia do nascimento do estadista Zacharias, o historiador Vargas assinala que desfilava pela rua o grupo folclórico Zambiapunga.
Entre 1822 e 1823, durante as guerras pela independência, a Bahia foi tomada pelas tropas portuguesas resistentes à libertação de Portugal. O comando das tropas brasileiras se organizou em Cachoeira, no Recôncavo, formado por um Conselho interino composto por representantes da Vilas de Cachoeira, Santo Amaro, Jaguaribe, Maragogipe, Inhambupe, Pedra Branca, Abrantes, Itapicuru, Água Fria, Jacobina, Maraú, Rio de Contas, Camamu, Santarém, Cairu e Valença. Esse Conselho desenvolveu ações políticas e militares fundamentais, organizando, armando e mantendo milícias formadas pelo povo baiano. Nesse período, além de sediar e dar apoio logístico à primeira esquadra de guerra brasileira, a região contribuiu com homens e mantimentos na chamada Guerra da Independência da Bahia. Por essa atuação, recebeu o título de “A decidida”.
Em 1829, a cidade estava florescente em desenvolvimento econômico. Em 1832, recebeu autonomia jurídica com a instalação de sua comarca, vindo o ouvidor, Doutor Francisco de Sousa Paraíso, em 1834, residir em Valença. Nesse ano, registra-se crescente movimento no porto, com grandes e pequenas embarcações, além do intenso tráfico de escravos no entreposto do rio Galé, atual Graciosa. Esse crescimento econômico e populacional fez desabrochar um importante projeto para a cidade e região: a Fábrica de Tecidos Todos os Santos, primeira a produzir tecidos finos no Brasil, instalada em 1844, entrando em operação em novembro de 1847. Acerca desse fato, escreve Waldir Freitas Oliveira: Somente em 1844 iria surgir, na Bahia, um grande projeto de indústria de tecidos, com a conjugação de interesses, de três grandes comerciantes locais – o português naturalizado brasileiro, Antônio Francisco de Lacerda, o norte-americano John Smith Gillmer e Antônio Pedroso de Albuquerque. Trata-se da instalação de uma fábrica de grandes proporções, às margens do Rio Una, em Valença, à altura da sua segunda cachoeira, a partir da foz, contando-se com abundante força hidráulica e um inicialmente presumido fácil abastecimento de matéria-prima, a ser fornecido pelas terras da Comarca do Rio de Contas.
Ao lado desses três empresários se encontrava, ainda, o engenheiro norte-americano, posteriormente naturalizado brasileiro, João Monteiro Carson, aqui radicado, e proprietário da Fazenda Candengo, em Valença. Foi ele encarregado de planejar e orientar a construção da fábrica, bem como de efetuar as obras de captação das águas do Rio Una, que iriam movimentar as máquinas (OLIVEIRA, 1985). Para a fabricação e o reparo das peças de que necessitasse, foi montada uma fundição de ferro e bronze. Além disso, em 1848, para facilitar o acesso de embarcações maiores ao porto de Valença, “fator essencial para o êxito do empreendimento”, foi construído, sob a orientação do citado Carson, no alto do Morro de São Paulo, o farol ainda hoje lá existente – considerado, na época, o mais moderno de todo o litoral brasileiro.
A produção têxtil de Valença respondia, na época, por 35% do mercado consumidor brasileiro. Era tão importante essa atividade industrial que, em janeiro de 1860, a “Todos os Santos” foi visitada pelo Imperador D. Pedro II e sua comitiva real. O Imperador ficou encantado com o que viu: “um excelente estabelecimento onde trabalham como uma família 200 para 300 operários, pela maior parte do sexo feminino, com belas máquinas, sobretudo as norte-americanas”. Era um sistema de trabalho inovador, com ensino da leitura e escrita, treinamento profissional e incentivo à Arte no próprio local de trabalho.
As dificuldades, contudo, nunca cessaram. Havia enormes embaraços à obtenção da matéria-prima local, com a perspectiva de fechar a fábrica, com desemprego sempre à vista. Apesar disso, uma outra fábrica, nessa mesma década, instalou-se em Valença – a “Nossa Senhora do Amparo”. Depois de também esta entrar em crise, as duas fábricas se fundiriam, surgindo assim a Companhia Valença Industrial. Apesar da falência do projeto industrial têxtil em Valença, registra-se a opção dessas fábricas pelo trabalho livre, assalariado, ocupado preferencialmente por mão-de-obra feminina, numa época em que não havia lugar senão para o trabalho escravo na ordem econômica do Brasil de então.
Em função das necessidades de energia para as fábricas dessa época, no final do século XIX, Valença passou a ter turbinas geradoras que iluminavam a cidade. Em 1878, o engenheiro Augusto Frederico de Lacerda projetou e instalou turbinas geradoras na Fábrica Todos os Santos, substituindo a primeira roda d’água por três turbinas e motores elétricos, com 120 cavalos de força. Foi a primeira fábrica da Bahia a gerar energia elétrica a partir da força hidráulica.
Em 1860, instalou-se a Santa Casa de Misericórdia, com capacidade para 50 enfermos, através da doação de um sobrado feito por Izidro de Sena Madureira, o Barão de Jiquiriçá, A cidade passou a contar também, em 1883, com um sistema de água tratada e encanada em tubos de ferro para chafarizes nas principais praças e em algumas casas particulares, fornecido pelo sistema aqüífero da então Companhia Valença Industrial. Por sua vez, em 1883, a antiga Capitania de Ilhéus foi desmembrada na velha estrutura administrativa, com sua divisão em duas comarcas: Ilhéus e Valença. Também fornecida pela C.V.I., Valença recebeu, em 1884, seu sistema de iluminação pública, em contrato feito com a Câmara Municipal. Em Aguiar (1979), registra-se que, ao final do século XIX, a cidade possuía boas praças, ruas calçadas, hotéis, comércio ativo, duas madeireiras movidas a vapor, bonde e troles, uma eclusa, chamada de Caldeira – a primeira que se construiu no Brasil – quatro olarias, dois estaleiros para embarcações de grande calado, 966 propriedades cobertas de telhas e 63 sobrados.
Século XX: do surto industrial à decadência comercial e estagnação econômica – o início do século XX, no Brasil, marca a mudança no sistema de transporte, de quase exclusivamente marítimo, para o ferroviário, e em seguida, para o rodoviário. A presença dos construtores das fábricas em Valença continuou trazendo obras como a da represa do Candengo, nas cachoeiras do rio Una, e o Teatro Municipal, no centro da cidade, em 1910, construído pelo engenheiro Augusto Frederico de Lacerda. A ponte Inocêncio Galvão, construída em 1890, foi destruída por uma grande enchente em 1913, que também inundou o primeiro povoado do Guaibim, localizado próximo à Ponta do Curral. O novo povoado do Guaibim, sob a liderança do pescador João Clímaco, deslocou-se para onde hoje está, desde então.
No ano de 1919, na gestão do engenheiro Raul Malbouisson, a Companhia Valença Industrial iniciou a construção das primeiras 143 casas da Vila Operária para seus funcionários, constituindo-se num dos primeiros projetos habitacionais populares do país. Inaugurada em 1922, compunha-se de casas confortáveis, com sanitários e rede de esgotos, água potável, luz elétrica e iluminação pública, oferecidas em aluguel a preços módicos aos trabalhadores da Fábrica. Também eram fornecidas escola e creche para os filhos desses.
Na década de 1920, Valença possuía uma população de 23.563 habitantes. Nessa década, a C.V.I. construiu uma ponte de madeira para viabilizar o trânsito de pessoas entre a fábrica e a oficina. Possuía dois pilares em pedra, com um alçapão de dois lastros que abriam verticalmente, de forma manual, por manivelas, para dar passagem aos barcos que comercializavam com a fábrica. Em 1922, foi inaugurada a Usina do Candengo, gerando 2.550 kW e melhorando o abastecimento de energia elétrica à cidade. A população contava com 19 escolas públicas e com “A Recreativa”, suntuoso edifício para associados, funcionários da C.V.I., com rico mobiliário, biblioteca, sala de música, salão de danças, toucador para senhoras, bilhares, bar e armazém, sob os moldes de uma cooperativa, construída em padrões da arquitetura francesa neoclássica, pelo engenheiro Raul Malbouisson, que se inspirou no Palácio de Versalhes.
Apesar de Valença ostentar importância econômica com sua expressiva atividade industrial e como um dos maiores entrepostos de intercâmbio comercial do Estado ao final do século XIX, esse desenvolvimento entrou em declínio e estagnação após as primeiras décadas do século XX. Mais tarde, por ocasião da 2ª Guerra Mundial, conforme relata Moutinho (2005), Valença entrou no cenário dos conflitos internacionais quando o submarino alemão U-507 bombardeou os navios Itajiba e Irará, na sua costa. Os passageiros foram salvos pelo saveiro Araripe e os feridos levados para o prédio da Câmara Municipal de Valença e para o hospital improvisado no Prédio do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Fiação e Tecelagem de Valença, prédio da Recreativa. Aí funcionou o primeiro banco de sangue desta região, fato ocorrido em agosto de 1942. Por esse gesto, Valença recebeu o título de “A Hospitaleira”.
Nessa década de 1940, Valença expandiu-se economicamente, com o segmento alimentício da mandioca predominando sobre o café e a cana. Ocorre a expansão da cultura de especiarias, com o dendê cultivado, o coco, o cacau, o cravo-da-índia, a pimenta-do-reino e o guaraná, além da seringueira. Inaugurou-se também a unidade de processamento da empresa Óleos de Palma S.A. – OLDESA. Em 1949, a cidade comemora o seu centenário, marcado pela presença da Construtora Odebrecht, que desenvolve um projeto inovador com a reformulação da Usina do Candengo, fazendo com que esta passasse a gerar energia suficiente para o funcionamento da fábrica de tecidos e para o abastecimento de toda a cidade. No ano de 1950, o transporte ainda era predominantemente feito por barcos. Tem início a construção da nova Ponte Inocêncio Galvão, de concreto, no lugar da antiga, de madeira. Inaugurada em 1951, a ponte, construída por Norberto Odebrecht, foi considerada uma grande obra de arte da engenharia para a época. Nesse mesmo ano, também foi inaugurado o Ginásio Municipal de Valença.
Década de 90: novo ciclo de investimentos visando ao potencial turístico baiano – a modernização do Estado da Bahia, a partir da década de 1950, concentrou-se em Salvador e no Recôncavo, constituindo-se em mais um retardamento de qualquer impulso modernizador na região. Por outro lado, isso significou, igualmente, o atraso das investidas predatórias. Em contrapartida, a presença de uma natureza exuberante e preservada viria a dinamizar atividades turísticas em lugares como Tinharé, Boipeba, Valença e Camamu. Contudo, somente depois da construção do “ferry-boat”, ligando Salvador a Itaparica, assim como de uma estrada-avenida atravessando a ilha, e da ponte ligando ilha e continente, houve a abertura e exploração dessa nova frente turística baiana. Pouco depois, vieram a estrada ligando Itaparica a Nazaré e a pavimentação da rodovia Nazaré/Valença. Tais investimentos, se favoreceram a visibilidade da região para o seu potencial turístico, não foram suficientes, no entanto, para alavancar a indústria do turismo, mesmo após Valença vir a se constituir em um dos 2.175 municípios turísticos do Brasil.
Na década de 90, novos investimentos em infraestrutura são realizados, com a construção de um aeroporto para aeronaves de grande porte, e o atracadouro Bom Jardim, na Ponta do Curral, para facilitar o acesso turístico entre o aeroporto e a Ilha de Tinharé.
Pesquisa e organização: Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo.
REFERÊNCIAS
_____. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Volume 2. Rio de Janeiro. IBGE, 1958.
_____. Biblioteca Nacional, Registros Históricos, volume XXX – 1690 a 1693.
_____. Boletim do Instituto Histórico e Etnográfico Paranaense (1979)
AGUIAR, Durval Vieira. Província da Bahia, 2ª edição, Rio de Janeiro: Cátedra/MEC, 1979.
CAMPOS, João da Silva. Crônicas da Capitania de São Jorge dos Ilhéus. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1981.
MOUTINHO, Augusto César Machado. A sombra da guerra. Editora Quarteto: Salvador, 2005.
OLIVEIRA, Edgard Otacílio da Silva. Valença: dos primórdios à contemporaneidade. Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia: Salvador, 2006.
OLIVEIRA, Waldir Freitas. A Industrial Cidade de Valença (surto de Industrialização na Bahia do século XIX) UFBA. Centro de Estudos Baianos: Salvador, 1985.
RISÉRIO, Antônio. Tinharé – História e cultura no Litoral Sul da Bahia. Salvador BYI Projetos Culturais LTDA, 2003.
VAZ GALVÃO, Araken. Valença – Memória de uma cidade. Edição da Prefeitura Municipal de Valença, Valença-BA, 1989.



