Um Conto: Dia D, Hora H

Por Adriano Pereira

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BANG! BANG! Foram 2 tiros certeiros. Um na cabeça do prefeito e outra na dele! Não deu tempo de fazer muita coisa naquele alvoroço, quando o estampido ecoou dentro do gabinete aquela hora, já quase vazio. O primeiro a adentrar foi o guarda que, desesperado, acionou logo o comando. A viatura chegou e já foi preciso colocar 2 guardas na porta pra conter a multidão que já começava a aglomerar, apesar da pandemia. Na sequência, os corpos foram removidos numa ambulância. Agora, o comandante na sala de controle, revia a gravação das câmeras de segurança pra entender o que aconteceu.

O sujeito entrou na sala e já foi logo sacando a arma e vociferando: – você foi o culpado! Não te perdoo. Agora, vamos morrer todos! – Apontou pro prefeito que, ainda sentado, levou a primeira bala na cabeça. Na sequência, ainda em pé, o sujeito deu o segundo tiro encostando o cano da arma em seu próprio queixo e caiu no chão, próximo à porta.

O sujeito era um velho policial aposentado. Há 2 dias perdera sua mulher, diagnosticada com covid e entubada às pressas. Ela era uma das muitas professoras que voltara a trabalhar. Após a cerimônia de enterro da esposa, seguindo todos os protocolos, o pastor foi o único que ainda conseguiu conversar com o sujeito que, inconformado, disse que ia pra casa e não queria ver ninguém. Eles não tinham filhos e a esposa, evangélica, já era a segunda companheira com quem ele passou a morar quando aposentou-se e veio morar na pequena cidade. O pastor temia que ele fizesse uma besteira, tentou persuadi-lo que eram os desígnios de Deus, que ele tinha que aceitar… essas coisas que todos dizem quando se perde entes… mas, ele não aceitava.

O prefeito era amigo do sujeito, os dois estiveram juntos na campanha… assim, não hesitou quando o velho amigo ligou-lhe pedindo uma reunião. Marcou no gabinete da prefeitura, ao final do expediente, onde costumava ficar até tarde. Quando o sujeito chegou, o guarda abriu o portão e deixou-o entrar. Avisou que o prefeito estava no gabinete, no primeiro andar.

Transtornado, o sujeito subiu as escadas, abriu a porta onde sacou da arma encerrando sua agonia, como narrado acima.

Mas, se tragédia pouca é bobagem, o que ninguém sabia é que, antes de ser morto, o prefeito também estava de covid. Os funerais, com todas as cerimônias que se prestam a um prefeito morto, e um militar aposentado, espalhou um rastro de contaminação que, dias depois, ampliou a tragédia e pôs a cidade a refletir que ambos, covid e armas, matam com a mesma letalidade.

Sobre o autor:

Adriano Pereira de Queiroz é poeta, escritor, dramaturgo e arte-educador. Atualmente é também vice presidente do Conselho Estadual de Cultura na Bahia.

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Nesta coluna “Não é Bem Assim”, o leitor do Baixo Sul em Pauta encontra confrontos de ideias, debates, discussões, polêmicas e reflexões sobre temas importantes que estão em pauta. São vários pontos de vista para você formar a sua opinião. Personalidades de nossa região tem espaço para publicar artigos de sua autoria, com argumentos e posicionamentos que podem ajudar a compreender melhor alguns assuntos.

O que você vai ver por aqui: Vamos virar do avesso várias matérias que vemos publicadas por aí para que você possa se aprofundar na informação e saber que, por trás de algumas notícias, sempre podemos ver que “Não é bem assim”…

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