8 de junho de 2026

27 de fevereiro de 2026

Posto, logo existo?!

Por: Hélio de Cristo (Hélio de Cristo é Doutorando em Difusão do Conhecimento pelo Programa de Doutorado Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento (PPGDC/DMMDC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Especialista em Produção de Mídias para a Educação On-line pela Faculdade de Educação (Faced) da UFBA. Especialista em Metodologia do Ensino na Educação Superior pelo Centro Universitário Internacional (Uninter). Graduado em Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Membro do Observatório Social da Juventude da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Professor da rede municipal de Cairu (BA) e coordenador pedagógico da rede estadual de educação da Bahia).

Os estudos sobre juventudes têm ganhado, cada vez mais, visibilidade em especial nas discussões sobre jovens e violência, sexualidade, criminalidade, tecnologias, redes e mídias sociais. Esses temas, na maioria das vezes, são o centro de interesse e preocupação sobre os quais pesquisadores têm se debruçado, a fim de estudar e compreender os processos de formação e trajetórias de vida juvenis em sua articulação com o universo político, geográfico, econômico, tecnológico, social, cultural, ambiental e ideológico.

Segundo Abramo (2014), a atenção dada aos jovens pelos meios de comunicação, pelos estudos desenvolvidos na educação superior, por instituições (não) governamentais vem crescendo nas últimas décadas brasileiras. Por isso, falar de juventude na contemporaneidade requer situá-la como fenômeno cultural, histórico-social e político. Afinal, a condição juvenil é fortemente caracterizada pelo contato original das novas gerações com um meio cultural preestabelecido ou preexistente.

As pesquisas mais atuais – especialmente dos últimos dez anos – revelam, de certa forma, um deslocamento dos estudos centrados nos processos de socialização para os processos de sociabilidade e atuação juvenis nos diferentes espaços, tempos e contextos sociais, dentre os quais se encontra o universo das tecnologias da informação e comunicação. Quanto a este aspecto, cabe ressaltar que a juventude é como um espelho retrovisor da sociedade. Mais do que comparar gerações é necessário comparar as sociedades que vivem os jovens de diferentes gerações. Ou seja, em cada tempo e lugar, fatores históricos, estruturais e conjunturais determinam as vulnerabilidades e as potencialidades das juventudes. Os jovens do século XXI, que vivem em um mundo que conjuga um acelerado processo de globalização e múltiplas desigualdades sociais, compartilham uma experiência geracional historicamente inédita (NOVAES, 2011, p. 02).

A ideia de juventude, aqui discutida, comunga com a perspectiva que os jovens são atores e sujeitos sociais com diferentes modos de ser e estar jovens, englobando a compreensão que as diferentes juventudes em suas plasticidades são afetadas, constantemente, pelas transformações no campo das tecnologias da informação e comunicação e produção de saberes e conhecimentos.

Os jovens do século XXI não são os mesmos jovens do século XIX, pois as demandas contextuais são outras, os problemas sociais já não são os mesmos, as experiências de inserção na estrutura social forjam a formação e gestão de outras identidades e subjetividades, solicitam dos jovens outras formas de lidar com os desafios e anseios sociais.

Os olhares das pesquisas sobre jovens em seus mais diversos territórios e formas de relações que expressam sua participação social, sua atuação protagônica e seu engajamento seja no contexto social, político, ambiental, tecnológico, comunicacional, econômico e cultural partem da premissa que os jovens não devem ser separados da condição de sujeitos da ação, das suas relações e vínculos geracionais, dinâmicos, relacionais, territoriais, tecnológicos e comunicacionais.

Daí que o ciberativismo, no seio dos movimentos sociais, pode ser considerado como uma categoria que insere e socializa os jovens politicamente na conjuntura social. Uma inserção e socialização política que está imbricada com os processos de ativismo, inclusive nas redes e mídias sociais. Nas palavras de Gohn (2012, 2014), ciberativismo diz respeito a uma estratégia de ativismo pela internet, que também é conhecida como ativismo online ou digital, cuja finalidade é realizar divulgação de causas, reivindicações e organizar mobilizações, especialmente por meio das redes sociais.

Por essa perspectiva, o ciberativismo juvenil no campo dos movimentos sociais merece alguns questionamentos: Que sentidos os jovens atribuem ao seu engajamento nas redes e mídias sociais? Que saberes e conhecimentos constroem, articulam e compartilham por meio das tecnologias contemporâneas? Como se dá essa construção, articulação, compartilhamento e comunicação? Até que ponto os saberes que articulam e compartilham funcionam como estratégias políticas colaborativas para o fortalecimento e disseminação de suas práticas ativistas de militância? Para que e para quem articulam e compartilham seus saberes? Que efeitos produzem?

A compreensão sobre como os sujeitos utilizam, colaborativamente, as mídias de comunicação digital para a articulação e compartilhamento de saberes dentro dos movimentos sociais se constitui um grande desafio científico contemporâneo, visto que – dentro das Teorias dos Movimentos Sociais – a comunicação foi uma categoria de pouca exploração do ponto de vista à ampliação do termo para além das concepções instrumentais de uso das tecnologias.

Por este ângulo, Castells (2012), ao discutir acerca dos limites, possibilidades e desafios da e na sociedade interativa a partir das relações comunicativas e colaborativas mediadas pelas redes de computadores, anuncia a emergência de novas formas de sociabilidades que implicarão na própria ressignificação da vida humana a partir das redes e mídias sociais, que apresentam novas maneiras e estratégias de comunicação e disseminação de saberes.

Para ele, as tecnologias da informação e comunicação, principalmente com o advento da Internet, funcionam como novos espaços para realização das mais diversas situações e atividades sociais, desde aquelas relacionadas ao trabalho (tarefas profissionais) àquelas de cunho pessoal como entretenimento, transações bancárias, televendas, sexos virtuais, compras online e correios eletrônicos; além de outras finalidades, como o ensino online, a propaganda, interação e o ativismo no campo político dos movimentos sociais.

A Internet, via Comunicação Mediada pelo Computador – CMC, vai assumindo a condição de ferramenta de disseminação de informações, mobilização e organização social, assim como campo identitário; onde se articulam e compartilham saberes, vivências, valores e subjetividades, segundo Fortim e Farah (2007).

No ciberespaço, a inteligência e a cognição passam a assumir a condição de resultantes de uma rede complexa de saberes, colaboração e compartilhamento de informações, na qual “[…] não sou eu que sou inteligente, mas eu com o grupo humano do qual sou membro […] O pretenso inteligente nada mais é do que um dos microatores de uma ecologia cognitiva que engloba e restringe” (LÉVY, 2000, p. 81).

Isso significa que, ao abordar os processos comunicativos de saberes e conhecimentos articulados e compartilhados por jovens militantes em movimentos sociais, parte-se do pressuposto que o ciberativismo não é sinônimo de discursos ou de mero ativismo (ação pela ação), ele se dá nos interstícios da reflexão e ação. No entanto, “se, pelo contrário, se enfatiza ou exclusiviza a ação, com o sacrifício da reflexão, a palavra se converte em ativismo. Este, que é ação pela ação, ao minimizar a reflexão, nega também a práxis verdadeira e impossibilita o diálogo” (FREIRE, 2011, p. 44).

Na percepção de Freire (2011), a construção da consciência política por meio dos saberes é a maneira mais natural e eficaz dos seres humanos compreenderem a si mesmos e o mundo, bem como atribuírem sentido e significado à sua existência no e com o mundo enquanto sujeitos sociais.

Uma vez desenvolvida a consciência reflexiva e crítica, os indivíduos têm condições de comunicar, questionar e problematizar a sua realidade, que resultará na construção de sua identidade pessoal e coletiva.

Na relação consciente e transformadora dos sujeitos no e com o mundo, o surgimento e desenvolvimento das redes e mídias sociais significaram novas formas de ativismo dos movimentos sociais através desses ciberespaços, que passaram também a se constituir como campos de ações políticas em rede, possibilitando maior participação, articulação e compartilhamento de saberes e experiências.

Por esse prisma, as novas Tecnologias da Informação e Comunicação têm sido cada vez mais uma potente agência socializadora das gerações mais novas em várias modalidades de ativismo no engajamento militante. A exemplo disso, percebeu-se a forte atuação da juventude (principalmente estudantes) que ocuparam, em 2016, as ruas, escolas, universidades, repartições públicas, redes e mídias sociais como forma de protesto contra a PEC 241/55 e a Medida Provisória do Ensino Médio nº 746.

As marcas da participação e ativismo juvenil na vida pública, segundo Paiva (2013), reverberam-se, em sua grande maioria, em conquistas alcançadas por meio das lutas por melhores condições de educação e saúde, pelo respeito à democracia, pelo cuidado e preservação ambiental, pela garantia e efetividade das políticas públicas, pelo respeito às questões de gênero e pela valorização da dignidade da vida humana, independente de raça, cor e etnia.

Por isso, a perspectiva histórica é um dos caminhos essenciais para a compreensão e efetivação do ciberativismo no processo de engajamento militante juvenil, entendendo esse o ativismo cibernético como sinônimo de participação, envolvimento, socialização política, inclusão e visibilidade das juventudes nas problemáticas sociais, econômicas, políticas, ambientais e culturais – enquanto seres ativos, críticos, capazes de pensar e problematizar sua própria realidade.

Almeida (2008) afirma que é “comum” a afirmação que jovem não gosta de política ou que juventude não combina com política. No entanto, para o autor, essa afirmativa revela uma falácia, visto que a história dos movimentos sociais nas mais diferentes modalidades de participação e engajamento sociais – especialmente na realidade brasileira – é fortemente marcada pelo ativismo da juventude, de onde provém grande parte das conquistas no campo social, político e cultural, principalmente a partir da década de 1960 (GOHN, 2014).

Referindo-se aos processos de ativismo juvenil na contemporaneidade, Gohn (2014) considera que o jovem ativista da época atual conta com elementos particulares e singulares específicos de comunicação, sensibilização, articulação, compartilhamento e gestão de informações e saberes, que fazem com que o ativismo político tome proporções significativas e cada vez maiores de participação social desde os movimentos de ruas às mobilizações por intermédio das novas Tecnologias da Informação e Comunicação, que viabilizam outras relações da juventude contemporânea, se comparadas com as juventudes das sociedades anteriores ao século XXI.

Nesse sentido, os jovens ativistas da contemporaneidade não limitam suas ações e capacidade crítica de se posicionarem e disseminarem suas visões de mundo apenas nos espaços físicos das organizações, coletivos e grupos sociais. Ao contrário, as novas Tecnologias da Informação e Comunicação têm possibilitado a expansão, diálogo e interlocução com outros atores sociais que, embora geograficamente se encontrem distantes, as ferramentas das redes e mídias sociais possibilitam a aproximação e não somente a troca de ideias e informações, como também a organização de mobilizações e a construção de suas narrativas cibernéticas no campo dos movimentos e protestos sociais advindos do fluxo de comunicação digital ou online.

Essa nova configuração de engajamento – conhecida como ciberativismo – se constitui como um indicativo para se pensar a emergência de discutir e compreender como os jovens articulam e compartilham saberes utilizando, colaborativamente, redes e mídias sociais como recursos políticos de comunicação, participação, gestão e divulgação de suas práticas de engajamento militante como expressão de participativa, democrática e cidadã.

Hélio de Cristo mora em Valença – Bahia. 

—————

Nesta coluna “Não é Bem Assim”, o leitor do Baixo Sul em Pauta encontra confrontos de ideias, debates, discussões, polêmicas e reflexões sobre temas importantes que estão em pauta. São vários pontos de vista para você formar a sua opinião. Personalidades de nossa região tem espaço para publicar artigos de sua autoria, com argumentos e posicionamentos que podem ajudar a compreender melhor alguns assuntos.

O que você vai ver por aqui: Vamos virar do avesso várias matérias que vemos publicadas por aí para que você possa se aprofundar na informação e saber que, por trás de algumas notícias, sempre podemos ver que “Não é bem assim”…

1 comentário
  1. Anne Cristo Diz

    Muito bom! Penso que há juventudes. Existem muitos modos de estar no mundo e viver.

Deixe uma resposta