Polêmicas de vento

O voto impresso é a nova cloroquina: inútil e desnecessária.

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Por Rosângela Góes

‎Sobre a autora: Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo é professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia, graduada em Letras e especialista em Avaliação, escritora, membro da Academia de Letras do Recôncavo-ALER, e da Academia de Educação, Letras e Artes de Valença-AVELA.

Com tanta coisa urgente para providenciar e cuidar atualmente no Brasil, eis que o sistema de votação eletrônica é posto sob suspeita e o ataque gratuito à normalidade democrática torna a ser o chamariz da Live semanal e do cercadinho de cada dia.

Assim, do nada, sem uma única evidência que alimente essa suspeição, o voto impresso é a nova cloroquina. Sem comprovação alguma, vira um querer birrento a destemperar as instituições postas em dúvida sobre sua idoneidade ou legitimidade. Nada mais desnecessário atualmente.

Como na história da roupa nova do rei, o presidente e a claque de deputados governistas e bolsonaristas trazem ao desfile das inutilidades a pauta do voto impresso como a novidade de um traje resplandescendo aos holofotes. Têm como argumento a possibilidade de fraude na eleição de 2018, a mesma pela qual o próprio presidente se elegeu.

Duscussão desnecessária e inútil porque a urna eletrônica no Brasil é considerada extremamente segura e o processo eleitoral já é auditado com inúmeras ferramentas, como o registro digital do voto, log da urna eletrônica, auditorias pré e pós-eleição, auditoria dos códigos-fonte, lacração dos sistemas, tabela de correspondência, lacre físico das urnas, identificação biométrica do eleitor, auditoria da votação e oficialização dos sistemas.

Inútil porque a maioria da população não se interessa por essa questão como mostra o painel do Senado Federal que, em meio à repercussão do assunto e devido à insistência de aliados no Congresso – assim como faz com outras proposições apresentadas na Casa – abriu consulta pública no site E-Cidadania sobre o voto impresso. Até 8 de maio, sábado, a maioria da população havia votado “não” para a proposta.

Outra matéria da Folha de São Paulo, de 7/05, trouxe a afirmação do presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, de que seu partido reconhece o resultado eleitoral que deu vitória à Dilma Rousseff (PT) na eleição presidencial de 2014, em resposta ao presidente, que diz ter “provas” de que Aécio Neves (PSDB) teria vencido Dilma Roussef naquele ano.

Ainda segundo Bruno Araújo, após a eleição de 2014, o PSDB pediu e obteve auditoria das urnas, a qual confirmou a vitória de Dilma e comprovou a autenticidade dos resultados.

Ora, esse Dom Quixote às avessas vive a digladiar com moinhos de vento como forma de distrair a população para os reais, graves e urgentes problemas nacionais como a resistência e recrudescimento da crise sanitária, a falta de vacinas que deem conta da demanda pela prevenção e volta ao trabalho, a negligência para um auxílio emergencial tardio e insuficiente para comprar o mínimo em meio à inflação descontrolada e a indiferença perante a escalada vertiginosa da fome e do desemprego. Enfim, a hora é de encarar que vento não enche barriga, não previne COVID, nem sustenta discurso, por mais que moinhos movam o delírio de uma guerra imaginária num país sob o império do nada.

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Nesta coluna “Não é Bem Assim”, o leitor do Baixo Sul em Pauta encontra confrontos de ideias, debates, discussões, polêmicas e reflexões sobre temas importantes que estão em pauta. São vários pontos de vista para você formar a sua opinião. Personalidades de nossa região tem espaço para publicar artigos de sua autoria, com argumentos e posicionamentos que podem ajudar a compreender melhor alguns assuntos.

O que você vai ver por aqui: Vamos virar do avesso várias matérias que vemos publicadas por aí para que você possa se aprofundar na informação e saber que, por trás de algumas notícias, sempre podemos ver que “Não é bem assim”…

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