O GUAIBIM E A HISTÓRIA DO OVO E DA GALINHA

Argumento de não investimento por inadimplência de impostos além de inútil, é retórico.

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Por: Rosângela Góes

O Guaibim é uma comunidade que sempre reclama melhorias do governo municipal e sofre com a devolutiva de que não tem investimentos porque os impostos não são pagos. Assim tem sido nos mais de 30 anos em que o Guaibim passou a ser uma atração turística de Valença, um município turístico.

O argumento é válido, mas é retórico. Possivelmente o mesmo poderia ser usado para quaisquer outras áreas da cidade mais afastadas do centro ou mesmo para todo o município, considerando-se o grosso dos pagamentos de impostos municipais a cada ano.

Num município onde somente 13,9 da população têm ocupação fixa segundo estimativa do IBGE/2018, pagar imposto não está na lista de prioridades da sobrevivência como comida, aluguel, gás e transporte. Além do mais, segundo o último Censo, em 2010, 46,6 % da população de Valença têm rendimento nominal per capita de apenas meio salário mínimo. Mesmo sem a atualização do censo, o que melhorou de 2010 para cá?

Com o Guaibim não é diferente. Os investimentos não vieram na proporção da condição turística do povoado. A sazonalidade castiga duramente os comerciantes e empreendedores que vêm a atividade se resumir a menos de dois meses no verão. E sem investimentos, sem visão estratégica do turismo profissional, não há como atrair o turismo qualificado capaz de remunerar a atividade de forma contínua.

Logo, chegamos ao aforismo do “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha”. Aos que alegam que a Prefeitura não faz porque, antes, os que reclamam devem pagar seus impostos, isso é coerente com o princípio de que impostos financiam investimentos. No entanto, tendo em vista que, numa população majoritariamente pobre e empobrecida justamente pela falta de investimentos para fomentar a reversão dessa pobreza, esse argumento se inverte: os investimentos numa área potencialmente turística vêm antes da expectativa por obrigacões que ignorem os resultados dos não investimentos.

Em todo lugar é assim. A indústria do turismo requer qualificação tanto em infraestrutura, quanto em serviços. Requer sincronia de eventos e calendário fixo para atrair clientela de várias categorias e faixas etárias em várias épocas do ano. Requer receptivo profissional organizado por roteiros de visitas a atrativos com estratégias de marketing convincentes.

Isso tudo depende de investimentos públicos, não cai do céu ou vai se arranjar naturalnente sem a iniciativa do governo. Cabe ao poder público organizar a atividade minimamente e, a partir daí, adquirir consistência para angariar credibilidade e buscar parcerias que consolidem a atividade de forma a gerar resultados econômicos e sociais relevantes.

Aprendi muita coisa com o Guaibim quando estive como Secretária de Turismo e Cultura no final dos anos 90 e não discordo de que inadimplência de impostos é um grande desafio aos gestores. Mas aprendi também a ver o outro ângulo dessa história e sei que o Guaibim é a nossa “galinha dos ovos de ouro” e que, infelizmente, sem uma boa ração e cuidados, não pode pôr ovo que a salve da inadimplência, muito menos os de ouro que ela potencialmente pode dar.

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‎Sobre a autora: Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo é professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia, graduada em Letras e especialista em Avaliação, escritora, membro da Academia de Letras do Recôncavo-ALER, e da Academia de Educação, Letras e Artes de Valença-AVELA.

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Nesta coluna “Não é Bem Assim”, o leitor do Baixo Sul em Pauta encontra confrontos de ideias, debates, discussões, polêmicas e reflexões sobre temas importantes que estão em pauta. São vários pontos de vista para você formar a sua opinião. Personalidades de nossa região tem espaço para publicar artigos de sua autoria, com argumentos e posicionamentos que podem ajudar a compreender melhor alguns assuntos.

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