18 de abril de 2024

30 de janeiro de 2024

CENSURA AO ENEM REFLETE TENTATIVAS DE RETROCESSO DEMOCRÁTICO

Por Rosângela Góes.

 

Sempre fico indignada quando pessoas que não vivem a prática escolar no Brasil, ou sequer contribuem para sua melhoria, se metem a “dar aula” de como deve ser esse ou aquele modo de fazer as coisas na Educação brasileira. Essa situação se exacerba no ENEM.

Quando parlamentares pedem satisfações ao MEC e ao INEP acerca de questões da prova deste ano (sobre exploração do Cerrado, desmatamento da Amazônia e corrida espacial), demonstram não só ignorância sobre as bases de elaboração do ENEM, como também a pretensão de controle político sobre a avaliação nacional.

Como qualquer atividade humana, o ENEM não está isento de críticas que possam melhorá-lo, criando ou reforçando mecanismos para sua modernização. Dentre esses, é preciso blindá-lo das tentativas de controle, para que o “calor” das polêmicas políticas não se imponha sobre a prova e sua importância.

Para os estudantes que concluem a Educação Básica no Brasil, o ENEM é a porta de entrada para as universidades públicas e particulares, como a FGV e o Insper. E também em Portugal e Espanha.

O que quer a frente parlamentar do agro constitui uma inversão absurda da realidade, posto que o contexto onde vive a maioria dos brasileiros exibe com clareza as consequências do avanço da soja e das pastagens, da grilagem, da ação de madeireiros e da mineração ilegal sobre a floresta amazônica e o Cerrado. Convém ressaltar o que a comunidade científica internacional vem alertando: que “o avanço do agronegócio violenta e desterritorializa comunidades tradicionais que dominam o manejo sustentável da biodiversidade, especialmente nos biomas Cerrado e Amazônia”.

Esse patrulhamento político das questões do ENEM deve ser compreendido como “manifestação de uma ideologia retrógrada, classista e excludente, que sentencia o Brasil a ser uma nação socialmente injusta e com desigualdades econômicas”, aponta a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANGEPE), que representa mais de 70 programas acadêmicos, e a Associação dos Geógrafos Brasileiros.

Que fique claro: o ENEM é um sucesso há mais de duas décadas. Tanto que substituiu o vestibular tradicional e, mesmo as universidades que ainda adotam a antiga forma de seleção, também oferecem a opção do exame nacional para ingresso. O ENEM é tão plural, que 86% dos itens da prova deste ano foram elaboradas durante o governo anterior.

A escola brasileira tem sido o quintal do vizinho onde todo mundo quer jogar seu lixo. O ENEM é uma avaliação técnica que exige preparo e experiência. Falar desse assunto sem conhecimento é temerário e imprudente. No mínimo, expõe o retrocesso a que estivemos submetidos nos últimos anos. Uma “democracia” onde os iguais (leia-se classe dominante) se protegem, excluindo os “desiguais” da maioria trabalhadora que deve ser, na visão desses “iguais” silenciada ou submetida ao “padrão”.

Graças aos professores anônimos espalhados pelas escolas brasileiras, o pensamento crítico sobrevive ao negacionismo científico e a democracia resiste pela revolução do conhecimento.

 

Sobre a autora:

Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo é professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia, graduada em Letras e especialista em Avaliação, escritora, membro da Academia de Letras do Recôncavo-ALER, e da Academia de Educação, Letras e Artes de Valença-AVELA. 

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