11 de agosto de 2022

A CADEIA SERÁ VENDIDA?

Por: Adriano Pereira de Queiroz, João Barreto e Leanderson Pinto da Silva.

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Fotos: João Barreto

 

Finalmente, o antigo prédio da cadeia deverá ter um destino, que pode, infelizmente, ser trágico. A tentativa de vendê-lo acontece desde 2016, quando surgiram os primeiros movimentos contrários, solicitando sua recuperação e um destino cultural. Entretanto, seguindo a sanha avassaladora onde tudo que é monumento e prédios históricos são destruídos para dar lugar a estacionamentos ou mega-empreendimentos encaixotados em concreto que descaracterizam o Centro Histórico da cidade, nenhuma posição definitiva foi tomada, até o momento, pela prefeitura, que é responsável pelo patrimônio. Atualmente a proposta de venda voltou à discussão na Câmara de Vereadores e se tiver aprovação do Conselho de Cultura, pode se concretizar.

É triste ver um monumento no coração da cidade, que poderia estar revitalizado, sendo fonte de renda e orgulho para Valença, agonizar. Entregue aos pombos, sucumbindo e causando medo a quem passa. Mais triste é constatar que a maioria, por desconhecimento da sua importância, pode concordar com sua demolição e venda.

Situado à Rua Conselheiro Cunha Lopes, mais conhecida como Rua da Cadeia, o prédio funcionou até 2001 como Delegacia e cadeia pública. Com a transferência desta para o bairro do Novo Horizonte, o prédio passou a funcionar como bazar/livraria da Igreja Católica. Houve até um prefeito fanfarrão que, de boca, doou o espaço ao Mestre Valter Viana. Como um posseiro, mestre Valter montou seu ateliê e sonhava transformá-lo na sede da Escola Cultural e Profissionalizante da Zambiapunga. Falecido em 2019, o mestre não viu seu sonho realizar-se. Suas obras de arte, inclusive, permaneceram até pouco tempo no prédio e foram deslocadas recentemente para o Theatro Municipal.

Mas, voltemos à Cadeia, cuja construção, apesar dos parcos documentos, remonta ao século XVIII, vez que pela Carta Régia de 23/01/1799, reconheceu-se como Vila de Nova Valença, freguesia do Sagrado Coração de Jesus, como território desmembrado da Vila de Cairu. Descreve o professor Edgard Oliveira que “após a eleição da sua primeira Câmara de Vereadores, foi instalada a vila em 10 de Junho de 1799”. (OLIVEIRA, 2006). Vez que o atual prédio da Câmara, antiga residência do Comendador Madureira, só foi adquirido por esta casa em 1878, indícios há de sobra, pela sua localização e arquitetura, de que o prédio da Cadeia, é, pois, a Casa de Câmara e Cadeia, como era chamada à época e existe em cidades baianas como Cachoeira e a famosa Cadeia do Sal, em Jaguaripe, uma vez que aqueles prédios – Casa de Câmara e Cadeia – significavam a autonomia dessas localidades.

Para comprovar tal hipótese basta atentar para sua localização: o prédio encontra-se na principal via, entre a Igreja Matriz e a Praça da Independência, onde pela esquina lateral desce a “ladeira do cais”. Há, pois, indícios de sobra para afirmar que o antigo sobrado da Casa de Câmara e Cadeia é a CERTIDÃO DE NASCIMENTO CIVIL de nossa cidade.

Em 2018, o Conselho Municipal de Cultura encaminhou documento ao Ministério solicitando providências. Como nada foi feito, em 2020, uma carta assinada por mais de 50 lideranças de vários movimentos, entidades, grupos culturais e universidades a exemplo da Maçonaria, IF’s, FAZAG, UNEB, UFBA, UFRB, entre outras, solicitava, mais uma vez providências em relação ao prédio. Na carta sugeria-se: “Se o poder público não tem recursos no momento, desenvolva uma parceria público-privada. O que não faltará são empresários interessados numa área tão nobre. Inaceitável é deixá-lo na situação em que se encontra”.

“O prédio poderia se tornar referência não apenas pela sua história e arquitetura, atraindo turistas; sobretudo, poderia funcionar com um espaço cultural com um museu, arquivo público e uma livraria atualizada, com obras dos autores da região, um café onde as pessoas interessadas em arte e cultura pudessem se reunir às tarde, conversando e trocando idéias. Poderá ainda ser um espaço que incentive a economia criativa, tendo um quiosque para que os turistas pudessem comprar algum souvenir da nossa cidade e adjacências, tudo aproveitando o amplo e existente espaço que muito contribuiria para a população valenciana, em especial, a juventude. No local deverá ser também a sede do Conselho Municipal de Políticas Culturais, para que esse possa funcionar com a mínima estrutura” – afirmava ainda o documento.

Em 2020, uma licitação chegou a ser feita pela prefeitura objetivando iniciar reparos no prédio. Mas como não houve interessados, nada foi feito. Em Maio deste ano, novamente o Conselho realizou uma reunião com a prefeitura cobrando providências. Agora, 3 meses após, a prefeitura convocou o Conselho apresentando um laudo, sob o argumento de que não tem dinheiro para a sua recuperação e propondo, mais uma vez, a venda do imóvel. Algumas vozes do Conselho já concordaram com a venda, desde que reconstrua-se a fachada, tal como a original.

O destino da Cadeia pode refletir também a postura que a sociedade tem com os mais velhos. Ao invés do cuidado, relega-se ao abandono. Explora-se ao máximo seu valor e mata-o para que o novo ocupe seu lugar. É triste, mas, quem defende essa mentalidade egoísta e utilitária de vender e soterrar nossa história, deve também esquecer os versos da saudosa professora Macária: “Valença nunca vencida/ comigo sempre tu estás (…).”

Sobre os autores:

 

  • Adriano Pereira, nascido e criado em Valença, atualmente é estudante de Direito no Campus XV da UNEB; vice-presidente do Conselho de Cultura da Bahia, eleito também suplente na Câmara de Patrimônio do referido Conselho.

 

  • João Barreto, graduado em Jornalismo pela UESB; pós-graduando em Cidades Inteligentes pela UNOPAR; suplente no segmento Patrimônio e Arquitetura do Conselho de Cultura de Valença-Ba.

 

  • Leanderson Pinto da Silva, filósofo, arquiteto, urbanista, pesquisador de patrimônio cultural, mestrando de urbanismo pela USP, Universidade de São Paulo.

 

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Artigo

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