17 de janeiro de 2022

Problematizando os corpos-territórios

Por Joilson Batista (Joilson Batista é Pedagogo, Mestre em Gestão e Tecnologias Aplicadas à Educação (GESTEC)- UNEB, Especialista em Gestão e Coordenação Pedagógica, Ensino da História e Cultura Afro-brasileira, Leitura e Produção Textual Aplicadas à Educação, Professor da Educação Básica (Cairu-BA).

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De 1500 a 1988 foram quase quatro séculos de escravidão de corpos-territórios no Brasil. Muitas das histórias que sabemos foram contadas e escritas por corpos-territórios brancos, heterossexuais, cristãos. Mas a quem interessa essa história? Os corpos que temos hoje, são fruto de toda subjugação que durante séculos perdurou na América Latina, aqui situamos o Brasil.

Faz-se, portanto, necessário a efetivação de práticas, procedimentos, conhecimentos e saberes decoloniais.

É urgente que se efetive e materialize a descolonização dos nossos pensamentos, nossas falas, nossas escritas, nossas práticas, das nossas mentes, consequentemente, nossos corpos-territórios.

Não concebe mais darmos espaços para que processos de subjugação, coisificação, processos de violência façam parte da exploração dos corpos-territórios dos sujeitos latino-americanos e outras partes do mundo.Assim, apontamos as contribuições de Milton Santos (2006) que território é categoria dos corpos em um dado território. Afinal, todos os corpos estão situados num dado espaço e serve como base e/ou orientação para demarcação ou marcadores sociais, gênero, racial, exploração e práticas de violências.

O pensamento de Santos (2006) se aproxima muito do pensamento decolonial. Ele aponta que o território é percebido a partir da interpelação sujeito-tempo-espaço, cujo conceito vai além do território nacional ou mero espaço geográfico (apropriação do espaço), mas, sujeito corpo-território e, que são (de)marcados por categorização e relação de poder.

Cabe ainda destacar que o corpo é, então, materializado na dinâmica de subprodutos: violência, machismo, homofobia, transfobia, intolerância religiosa, racismo (estrutural e institucional), etc.

Esses subprodutos, conforme já falamos, está, infelizmente, direcionados a corpos-territórios pré-determinados: homossexuais, negros, indígenas, da favela, mulher, criança, adolescentes, jovens e adultos negros/as, etc.

Os marcadores e os subprodutos estão tão presentes nos dias atuais de forma e escancarada. Podemos citar, por exemplo, o fato noticiado pelas mídias, do norte americano, Geoge Floyd, o fato de um homem negro nos EUA, ser imobilizado pela força truculenta e ultraliberal dos policiais nos EUA, ocasionando sua morte, no mês de maio de 2020.

Outro fato que repercutiu, dessa vez no Brasil, com a morte do Miguel Otávio Santana da Silva, negro, de 5 anos, que, infelizmente, morreu após cair do 9º andar de um prédio de luxo no Centro do Recife, no mês de maio de 2020. Ressaltamos que no momento do acidente, filho da doméstica (negra) que estava na parte de baixo do prédio passeado com o cão da patroa. E a criança estava sob os “cuidados da patroa”, que deixou a criança sozinha no elevador.

O caso citado do George Floyd, de 40 anos, negro e do Miguel Otávio são dois exemplos. Mas que representa centenas de outros corpos-territórios, que são marcadores e demarcadores que, infelizmente, servem de orientação para a subjugação, exploração e práticas violentas aos corpos. Infelizmente, os marcadores de subjugação e exploração dos corpos tem cor, classe, gênero, endereço, etc.

As situações de práticas de exploração dos corpo-territórios fazem-nos compreender que os corpos são demarcados, orientados e naturalizados através de processos discursivos e dinâmicas de poder dos corpos.

Diante disso, cabe ainda acrescentar o que Spivak (2010), apresenta ao referir os corpos-territórios subalternizados, hoje. Para ela, […] às camadas mais baixas da sociedade constituídas dos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante. (SPIVAK, 2010p. 12).

A autora chama a atenção para o fato de as vozes silenciadas dos corpos-territórios subalternizados. A alusão a esses fatos serve ainda para ilustrar a demarcação territorial dos corpos no Brasil, na América Latina e no mundo, fruto de um processo colonizador, exploratório, patriarcal, heteronormativo, cristão.

Pensamos ainda que a demarcação dos corpos-territórios vem descortinando as facetas dos discursos de ódio, morte, necropolítico, xenofóbico, intolerante, etc.

Assim, aponta Gaucira Lopes Louro (2004), em seu artigo intitulado “Marcas do corpo, marcas do poder”. Ela sinaliza que as demarcações do/no corpo foram inventadas, retroalimentadas culturalmente materializa em nossa sociedade.

Cabe portanto, questionar: Que corpos-territórios são esses? Quem autoriza essa violência? A quem interessa? São questões que precisam ser problematizadas, respondidas e punidas na contemporaneidade.

Esses corpos, como disse, estão “autorizados e sentenciados” às formas de exploração pelos marcadores culturais, raciais, religioso, sexual e de gênero.

Os corpo-territórios estão sendo, infelizmente, apropriados, objetificados, subalternizados, coisificados, violentados, explorados constantemente nos territórios da América Latina e, especificamente, no Brasil. Esses subprodutos são frutos de bases ideológicas neoliberal, patriarcal, cristão, heteronormativo na/da sociedade brasileira.

Outrossim, corroborando com o pensamento de Louro (2004), estão implicadas práticas (discursos e ações) hierárquicas e relações de poder. Que por sua vez essas relações são perpetuadas e retroalimentadas através dos discursos repetidos nas mídia, na igreja, e outros espaços/territórios/relações de poder. Quijano (2005), na América Latina o fim do colonialismo não significou o fim da colonialidade.

Isto quer dizer que ainda há, na contemporaneidade organização combinada de raça e sexo/gênero: homem branco, mulher branca, criança branca, homem negro e mulher negra e criança negra, ou seja, combinação marcadoras dos corpos-territórios. E mais, acentuou também os estigmas com outros coletivos nesta lista: os idosos, população LGBTQIAP+, pessoas com deficiência, processos de violência, etc.

Por fim, precisamos potencializar as discussões no século XXI que contribua para paradigma de sociedade justa, humana, pluriétnica, e com corpos-territórios democráticos, na proposição é uma liberdade de poder, de ser e de saber.

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Nesta coluna “Não é Bem Assim”, o leitor do Baixo Sul em Pauta encontra confrontos de ideias, debates, discussões, polêmicas e reflexões sobre temas importantes que estão em pauta. São vários pontos de vista para você formar a sua opinião. Personalidades de nossa região tem espaço para publicar artigos de sua autoria, com argumentos e posicionamentos que podem ajudar a compreender melhor alguns assuntos.

O que você vai ver por aqui: Vamos virar do avesso várias matérias que vemos publicadas por aí para que você possa se aprofundar na informação e saber que, por trás de algumas notícias, sempre podemos ver que “Não é bem assim”…

Professor Joilson Batista mora em Valença – Bahia. 

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