13 de julho de 2024

30 de janeiro de 2024

LINGUAGEM NEUTRA É PSEUDO INCLUSÃO

Por Rosângela Góes

 

Sobre a linguagem neutra no Português, têm-me pedido um posicionamento a respeito e aqui vai, não como opinião, mas com base no conhecimento e utilização da Língua Portuguesa como professora.

Na nossa língua, seja em Portugal ou no Brasil, não faz nenhuma diferença mudar a vogal temática* de substantivos e adjetivos para designar o gênero das palavras como forma de possibilitar a inclusão de pessoas não binárias.

Isso porque, na maioria das vezes, essa vogal final a que chamamos temática, não define o gênero masculino ou feminino como indicativo do sexo. Por isso, na maioria absoluta delas, quem define o gênero é o artigo que antecede a palavra, concordando com ela.

Do mesmo modo que dizemos poeta e manobrista, que terminam em a e são palavras tanto masculinas quanto femininas com a variação do artigo, dizemos razão e compreensão, que terminam em o e são femininas. Assim como no feminino se empregam ficção, sensação, demolição – e todas terminadas em -ção – mesmo com final em o.

Além disso, a maioria dos adjetivos podem ser tanto masculinos quanto femininos, sem qualquer intervenção do a ou do o final: feliz, triste, fiel, alerta, alegre, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável, sendo todos concordantes com o substantivo em gênero e número.

Então, significa que terminar uma palavra com E não faz com que ela seja neutra. Vejam alface, maré, couve, atitude, que terminam com E e são femininas. Ou abacate, esmalte, espinafre, elefante, que são masculinas.

Como o gênero, em Português, é determinado muito mais pelos artigos do que pelas vogais finais, não seria a instituição de uma terceira vogal, como E, que determinaria um gênero neutro ou uma língua neutra.

O princípio da mudança linguística é o da economia e o do uso corrente que determine a boa comunicação entre os falantes e isso significa entender e se fazer entendido na mensagem. A língua é um contrato social dinâmico, mas, na sua historicidade, a criação de um artigo neutro seria mudar um idioma inteiro numa configuração que, a pretexto de combater o preconceito, pode excluir mais do que a inclusão pretendida.

Por exemplo, como ficariam os outros segmentos como os cegos e os surdos-mudos, com suas linguagens adaptadas ao Português padrão? Os alfabetizandos ou os estrangeiros, os quais precisam aprender Português para serem incluídos socialmente no país?

Tem também uma última coisa, que é fatal: gênero, em Português ou em outras línguas, não necessariamente se refere ao sexo. Gênero linguístico significa que, no oceano gigantesco das palavras, a maioria delas é feminina ou masculina independentemente do utilitarismo dessa definição. Como já dito, são neutras palavras como estudante, cliente, dentista, artista, viajante, etc., sem que a colocação de uma vogal no final as torne femininas ou masculinas e sim o artigo.

Portanto, não faz diferença nenhuma mexer nos gêneros gramaticais para vencer o preconceito. Todas as formas de preconceito precisam ser prevenidas, combatidas e não toleradas. Porém, o que ajudaria nisso – aqui agora é a minha opinião – é investir no índice de letramento da população brasileira para melhorar a proficiência leitora nas escolas de todos os níveis. Isso é prioritário e melhoraria sobremaneira o enfrentamento da ignorância que gera preconceito e exclusão.

Enfrentar o preconceito na questão linguístíca significa reconhecer, por exemplo, que as variações são da fala e não da língua, que esta é um contrato social padrão válido para todas as pessoas de um mesmo país. Já a fala não. Esta é sujeita aos grupos sociais culturalmente organizados por região, faixa etária, segmento profissional, etc.

Não é o caso de um gênero neutro para incluir pessoas não binárias e seria desastroso modificar a língua em nome da inclusão de um determinado grupo em detrimento dos outros. Assim, teríamos que desfigurar a língua para incluir todas as modalidades de fala dos demais grupos.

Começar por mais leitura, interpretação de textos e escrita fluente faria muito mais diferença para a inclusão social das pessoas do que a incisão cirúrgica de um gênero “neutre” no padrão linguístico nacional.

* Vogal temática é a vogal átona (a, e, o) colocada entre o radical e a desinência de número (singular e plural) das palavras. Exemplo: dança – danç+a, teste – test+e, sonho – sonh+o.

Sobre a autora:

Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo é professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia, graduada em Letras e especialista em Avaliação, escritora, membro da Academia de Letras do Recôncavo-ALER, e da Academia de Educação, Letras e Artes de Valença-AVELA.

=====

Deixe uma resposta