9 de agosto de 2022

Ministério da Saúde admite ineficácia de cloroquina e outros medicamentos do “kit covid”

O governo federal passa a desaconselhar oficialmente remédios como hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina, lopinavir/ritonavir, colchicina, plasma convalescente e a ivermectina por não possuirem evidência que justifiquem seu uso em pacientes com Covid-19. A contraindicação consta em nota técnica emitida nesta quarta-feira (14) pela pasta.

0 63

 

O Ministério da Saúde reconheceu, em documentos enviados à CPI da Covid essa semana, que medicamentos que compõem o chamado “kit covid“, amplamente defendidos por Jair Bolsonaro, são ineficazes contra o vírus.

“Alguns medicamentos foram testados e não mostraram benefícios clínicos na população de pacientes hospitalizados, não devendo ser utilizados, sendo eles: hidroxicloroquina ou cloroquina, azitromicina, lopinavir/ritonavir, colchicina e plasma convalescente. A ivermectina e a associação de casirivimabe + imdevimabe não possuem evidência que justifiquem seu uso em pacientes hospitalizados, não devendo ser utilizados nessa população”, diz documento.

Em maio, o Ministério já havia emitido um parecer contraindicando o uso dos medicamentos para pacientes internados com covid, mas que só chegou à CPI essa semana. Duas notas técnicas foram entregues à comissão por um pedido do senador Humberto Costa (PT-PE).

Os medicamentos são os mesmos usados para tratamento precoce, que são defendidos por apoiadores do governo e indicados pelo aplicativo do Ministério da Saúde, TrateCov, em Manaus (AM) em janeiro, no auge da crise de oxigênio no estado. A plataforma saiu do ar após a pasta alegar invasão hacker, mas desde junho de 2020 emitiu orientações sobre o uso e a divulgação do chamado “tratamento precoce” e mesmo após várias manifestações dos órgãos científicos, o Governo continuou apostando no coquetel sem comprovação.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) advertia, já no ano passado, para a ineficácia dessas substâncias, já testadas e universalmente descartadas nas pesquisas realizadas em diversos países do mundo.

A nota técnica emitida pelo MS enfatiza que não está em avaliação incluir cloroquina como medicamento indicado em qualquer fase do tratamento à doença:

“Não há, no âmbito da Conitec, demanda para análise de incorporação da cloroquina ou hidroxicloroquina para tratamento da Covid-19”, destaca a nota do Ministério da Saúde.

Conitec é a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias, órgão de assessoramento do SUS.

A CPI apura se a existência de um gabinete paralelo ao Ministério da Saúde influenciou o atraso na compra das vacinas, o favorecimento de laboratórios e a compra de medicamentos do “kit covid” sem eficácia para o tratamento da doença. O Governo Federal gastou R$ 23,3 milhões em campanhas publicitárias para divulgar o “kit covid” sem eficácia. O custo foi confirmado à Procuradoria da República.

Um levantamento do Jornal Folha de S. Paulo mostrou ainda que farmacêuticas faturam mais de R$ 1 bilhão com as vendas do chamado “kit covid”. Uma delas, a EMS, registrou crescimento de 709% em 2020 em relação ao ano anterior, o que significou um lucro de R$ 142 milhões.

Na avaliação de Natália Pasternak, PHD em microbiologia, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e fundadora do Instituto Questão de Ciência (IQC) à CPI da Covid, foi a de que “a crença de que existe uma cura simples, barata, que seria o sonho de todos nós, levou as pessoas a um comportamento de risco”. De acordo com a especialista, a postura do governo “confundiu as pessoas em relação à gravidade da doença”. A aposta a todo custo também fez “aumentar o número de vítimas da doença do novo coronavírus”.

“Eles morreram de desinformação”, afirmou Pasternak em seu depoimento. “Entre as vidas perdidas, parte são de pessoas que não adotaram as recomendações e acreditaram em uma cura falsa e milagrosa”.

Documentos enviados à CPI da Covid também revelaram que o Ministério da Saúde foi mais ágil em comprar medicamentos sem eficácia comprovada do que as vacinas. O presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, ainda garantiu aos senadores que houve pressão para que o órgão mudasse a bula da cloroquina.

O uso dos remédios, que agora passam a ser não-recomendados pelo Ministério da Saúde, nunca foi proibido no Brasil, mas a compra e adoção como política pública de combate à pandemia pelas Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde foram desestimuladas após os estudos começarem a concluir que não faziam efeito contra o vírus. Mesmo assim, diante da falta de alternativas, muitos médicos continuaram a receitar, além de muitos pacientes também utilizarem por conta própria, sem orientação dos profissionais. Especialistas dizem que tal prática acarretou num relaxamento das medidas de prevenção por parte da população e também em consequências como outros problemas problemas de saúde, a exemplo de doenças hepáticas por altas doses ingeridas.

 

Fontes: Congresso em Foco, Rede Brasil Atual, Jovem Pan, CNN, Brasil de Fato, Folha de São Paulo.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.